#06 – O preço de uma paixão

Sendo uma paixão, não temos coragem de mandar todos estes gadgets para o lixo e começamos a armazená-los na despensa. Mesmo quando perdem a piada, pensamos em todo o dinheiro que gastámos e não conseguimos livrar-nos deles.

Maior Menor
22 de Fevereiro de 2017

Caro leitor,

Quando era criança a minha grande paixão eram os Legos.

Passava horas a montar e a desmontar.

Infelizmente para mim, não era um brinquedo barato.

Tinha que pedir sempre com muito esforço para que os meus pais me comprassem aqueles que eu queria.

Pensava nos meus anos e no Natal com muita antecedência, pois já sabia o que ia pedir.

Na altura não existia internet e, portanto, passava o meu tempo a folhear catálogos de supermercado para saber as novidades.

Mais tarde esta paixão passou para a tecnologia e levou-me a construir computadores peça a peça.

Conhecia as marcas e discriminações de todos os componentes. Sabia que certas memórias RAM só funcionavam na sua potencialidade máxima se amotherboard tivesse as especificações corretas.

Pessoalmente, e para quem gosta de jogos de computador – deve haver uns quantos gamers na audiência –, considerava as placas gráficas a cereja no topo do bolo.

E não nos podemos esquecer da fonte de alimentação, que apesar de negligenciada, é o que dá potência à maquina.

caçador-de-valor-1-computador

A internet trouxe-me as placas de rede e grandes discussões por causa da conta do telefone.

Na altura, os computadores eram mais caros do que hoje em dia, mas com uma fração da potência de um tablet.

Na altura, a evolução dos computadores era tão rápida que mais se parecia com roupa para bebés.

Assim que comprávamos, já não servia.

Nos dias que correm, ser um entusiasta da tecnologia continua caro.

Comprar a última geração de um telemóvel, tablet ou portátil pode ser um rombo no seu orçamento.

Honestamente, isto é verdade para qualquer paixão.

E sendo uma paixão, não temos coragem de mandar todos estes gadgets para o lixo e começamos a armazená-los na despensa.

Mesmo quando perdem a piada, pensamos em todo o dinheiro que gastámos e não conseguimos livrar-nos deles.

Há dois anos, e após os meus pais andarem a chatear-me sistematicamente para me livrar de toda aquela tralha, lá consegui abrir mão e deitar tudo fora.

A aversão à perda

 

No mundo das ações acontecem situações semelhantes.

Por vezes apaixonamo-nos por uma ação – ou porque trabalhamos para essa empresa, ou porque gostamos dos seus produtos e os conhecemos de fio a pavio, ou porque a analisámos tão detalhadamente que acabamos por criar um elo emocional.

Como o propósito da nossa compra não é racional, o mais provável é que esta venha a ter um desempenho insatisfatório, podendo muito bem vir a gerar menos valias.

Quando a ação começa a cair ficamos relutantes em vender com uma perda, pois não queremos admitir que tomámos uma decisão errada.

Ao contrário de outras decisões erradas, nesta sabemos exatamente o custo do erro, sendo difícil iludir-nos com desculpas, e passamos a ver este investimento distante do resto do nosso património.

E, como nas outras paixões, deixamos a ação na despensa sem nos conseguirmos livrar dela.

Mental Accounting

 

A divisão do nosso património por objetivos apesar de ser muito divulgada como um modo de poupar poderá trazer-nos partidas.

Pelo facto de dividirmos as nossas contas em ‘potes’ faz com que não pensemos no nosso património como um todo: temos o ‘pote’ das férias, o da compra do novo carro, o do infantário da criança, o das ações…

homerbrain

Quantas vezes o leitor não ouve pessoas dizerem que o subsídio de almoço é apenas para o almoço? Ou que o subsídio de férias é apenas para as férias? E por aí em diante…

Há quem chegue mesmo ao extremo de usar o ‘pote’ das férias para fazer uma viagem, quando na verdade tem uma conta de cartão de crédito no mesmo montante com 20% ou 30% de taxa de juro por pagar.

Esta situação é daquelas que leva qualquer homo economicus a pôr as  mãos à cabeça.

Como é que é possível considerarem-se umas férias quando se tem um custo tão elevado com uma dívida?

Há muitos anos era bastante normal empresas cotadas em bolsa pagarem uma parte do bónus aos seus empregados com ações próprias.

Muitos receberam ações do BCP, da Portugal Telecom, da EDP, entre outras.

Por terem orgulho na empresa onde trabalhavam viam estas ações de um modo diferente – o ‘pote’ das ações onde trabalho.

Acabavam por ir aos aumentos de capital especiais para empregados e ainda compravam mais ações porque tinham conhecimento privilegiado e acreditavam na empresa.

Por vezes esta situação levava a que o peso das ações no património do colaborador fosse demasiado elevado.

Ter o nosso rendimento anual e as nossas poupanças dependentes da mesma empresa vai contra todos os princípios financeiros de diversificação, pois caso esta venha a ter problemas, poderemos não só perder o nosso trabalho como as nossas poupanças, ficando mesmo sem nada.

Mas como ambos são ‘potes’ diferentes do património assumimos que são riscos diferentes, quando na verdade trata-se do mesmo.

Deixe-me ser claro: o investimento em ações tem de ser diversificado!

Assim, nenhuma ação deve ter demasiada representatividade no seu património.

Lá por o seu empregador lhe ter pagado um bónus em ações, não tem de ficar com elas para o resto da sua vida.

Venda uma parte e reequilibre a sua carteira.

Não interprete isto como um julgamento, já todos tomámos decisões erradas sobre investimentos.

Estamos aqui para lhe transmitir esta sabedoria que adquirimos ao longo da nossa profissão.

Faz parte do processo de aprendizagem porque se fosse fácil éramos todos ricos!

O que não é normal é repetir o mesmo erro sucessivamente e também não podemos desistir apenas porque o único investimento em ações que tivemos correu mal, privando-nos de um retorno extra no nosso património.

Por estas razões, o investimento em ações deve ser constituído por uma carteira diversificada e equilibrada, já que o objetivo a longo prazo é apanhar o retorno geral do mercado, assumindo apenas risco de mercado e não de uma empresa específica.

Cada risco no seu galho

 

Já reparou, com certeza, que quando um índice perde 20% num curtíssimo espaço de tempo, regra geral, nenhuma ação fica no verde?

Esta relação que existe entre os movimentos das ações é exatamente o risco que não conseguimos evitar.

O risco de mercado é caracterizado por flutuações e tendências aleatórias de curto prazo, mas que no longo prazo se transforma num acumular de riqueza com efeito de bola de neve.

Quando recomendamos um investimento em ações é a este tipo de risco que queremos estar expostos.

O risco de uma empresa específico inclui o crescimento do sector onde a empresa está inserida, o modelo de negócio, a gestão, os acionistas, a relação como os clientes e os fornecedores…

Quando alguém investe apenas numa empresa está a correr os dois perigos.

Já não basta o risco de mercado no curto prazo ser difícil de gerir e ainda temos de levar com todos os caprichos da empresa.

A diversificação é exatamente a ferramenta que mitiga o risco de um CEO idiota, de um produto falhado ou de mil e outras coisas que destroem empresas todos os dias, mas que passam ao lado do mercado em geral.

No último Caçador de Valor referi que um investimento em ações a longo prazo cria mais riqueza do que um investimento em obrigações ou em depósitos a prazo.

Este investimento tinha como pressuposto um índice de ações e não apenas numa empresa específica.

A diversificação é sempre um problema para quem pensa em alocar apenas €2.000 ou €3.000 do seu património em ações.

Devido às comissões, não é viável investir montantes pequenos como €100 ou €150 por empresa.

No entanto, existe uma solução!

Os ETFs são fundos de investimento que seguem um índice de ações diversificado com um custo relativamente baixo.

Os princípios fundamentais da diversificação regem as recomendações dos meus colegas Pedro Gonçalves e Renato Breia, na série Carta Empiricus, onde recomendam um ETF específico para ajudá-lo a encontrar soluções para mitigar estes riscos ao mesmo tempo que multiplica o seu património.

Não deixe esse investimento em ações individuais seja a maçã podre do seu património.

Até para a semana,