#10 – Por que é que eu não compro a nova emissão da CGD

Como a CGD não é cotada em bolsa e esta nova emissão é vista por muitos investidores como uma oportunidade para investir no banco público, decidi fazer uma nota especial.

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23 de Março de 2017

Caro leitor,

Nos dias de hoje a emissão de dívida subordinada da Caixa Geral de Depósitos (CGD) vem muito à baila nas notícias.

Esta emissão é caracterizada por ser apenas para institucionais, comohedge funds, fundos de investimento e seguradoras, não sendo oferecida ao investidor privado.

Por esta altura, o leitor mais atento já se está a perguntar se esta e-letter não era suposto ser sobre ações…

Era e continua a ser, mas como a CGD não é cotada em bolsa e esta nova emissão é vista por muitos investidores como uma oportunidade para investir no banco público, decidi fazer uma nota especial.

Não é para mais… alguns leitores já me perguntaram se esta emissão seria vendida posteriormente ao público em geral e se seria um bom investimento.

“Tenho conhecimento que por agora é somente para investidores institucionais, mas quando a “oportunidade” for dada aos particulares, será que é um bom investimento ou nem por isso?” David.

Por norma, este tipo de emissões tem um valor mínimo de €100.000 de modo a que os pequenos investidores não possam comprar a obrigação, no entanto, é possível a revenda posterior a investidores particulares.

Como deve lembrar-se, tanto o BES como o Banif tinham dívida subordinada que também apenas deveria ser vendida a institucionais.

No entanto, muitos dos atuais lesados colocaram todas as suas poupanças para conseguir perfazer o montante mínimo e comprar as tais obrigações.

É também possível que fundos de investimento comprem estas emissões e que depois sejam comercializados aos investidores em geral.

Por todas estas razões, o leitor deve ter uma especial atenção quando o seu gestor de conta lhe disser algo relacionado com a dívida da CGD.

E até o ajudo mais. Para que não fique sem argumentos perante o seu gestor de conta, explicar-lhe-ei tudo sobre esta emissão.

 

Necessidade de uma taxa atrativa para aliciar os investidores

 

A administração da CGD e o sindicato bancário começaram um roadshow por Lisboa, Londres e Paris no dia 20 de março para vender a nova emissão de dívida subordinada.

O objetivo será vender €500 milhões agora e nos próximos 18 meses, numa segunda emissão, mais €430 milhões, totalizando €930 milhões.

Esta emissão apenas vai ficar concluída se o Estado injetar no banco €2.500 milhões na mesma altura.

Ou seja, os privados metem numa primeira fase €500 milhões, o Estado €2.500 milhões, e depois numa segunda fase os privados investem outros €430 milhões.

A taxa que anda a ser sugerida ronda os 8-10%, pois o Unicredit numa operação semelhante aceitou pagar uma taxa 9,25%, o BBVA 8,875% e o Bankinter 8,625%.

Ora, como o rating da CGD é inferior ao destes bancos, o mais provável é que a taxa se aproxime dos 10%.

Isto é uma das razões pelas quais existem duas tranches, pois na segunda e já depois da capitalização por parte do Estado, é esperado que a taxa de juro seja menor.

Estamos aqui a falar de uma emissão perpétua, mas o banco tem a possibilidade de a reembolsar ao fim de cinco anos.

Ou seja, após esse período a decisão de escolha do reembolso desta emissão fica do lado da CGD.

 

What’s the catch?

 

Pense comigo, com um juro tão apetecível tem de existir uma contrapartida.

Ora bem, o risco desta emissão é equivalente a um investimento no capital da empresa com a desvantagem de que nunca será acionista, ou seja, dono do banco.

Estas obrigações nunca podem ser transformadas em capital do banco, pois por lei apenas o Estado português pode ser o acionista.

No prospeto da emissão vai ter uma cláusula relacionada com o capital do banco, o rácio CET1.

Explico já de seguida o que significa na prática.

O CET1 é o rácio de fundos próprios principais de nível 1 da CGD, ou seja, o capital necessário para fazer face à dimensão do balanço.

No final de 2016 o CET1 fechou nos 7%, enquanto em 2015 era de 10,9%.

A cláusula diz que se o CET1 vier para baixo dos 5,125% as obrigações são reduzidas nominalmente até ao nível de um CET1 de 8,25% exigido pelo Banco Central Europeu.

Deixe-me ser claro: esta redução pode ser temporária ou permanente!

Por outras palavras, se o banco baixar desse nível, então o investidor estará a braços com um prejuízo avultado…

No entanto, com este aumento de capital de €3.000 milhões o banco estima que o rácio CET1 ascenda a 12%.

A CGD passa a cumprir com os objetivos, mas se os resultados continuarem a ser tão maus como em 2016 (resultado líquido negativo de -€1.859,5 milhões) as necessidades de capital vão voltar.

Fica claro o risco de um investimento nestas obrigações e por esta razão eu não recomendo investir nestas novas emissões.

O banco público claramente não anda bem e na Carta Empiricus já alertámos os leitores para a situação económica portuguesa e quais os bancos mais seguros para depositar o seu dinheiro.

Até para a semana.