#12 – Os bull markets sobem com o ceticismo

A maioria não acredita que este bull market dure muito mais tempo. Este sentimento é natural pois ainda existem temas angustiantes e mal resolvidos que podem ser o próximo catalisador a afundar os mercados.

Maior Menor
7 de Abril de 2017

Ainda agora começou a primavera, mas há quem anuncie a chegada do inverno.

Esta frase – que poderia servir para anunciar o início da nova temporada doGame of Thrones – ilustra o sentimento que existe no mercado.

Existe uma vigilância permanente sobre o próximo evento que irá virar o mundo do avesso.

Devido à ciclicidade dos mercados é de esperar que de tempos a tempos o inverno chegue e como não existe nenhuma crise global desde 2008, as expetativas para que um nevão venha acontecer estão a aumentar.

Em conversa com analistas e investidores reparo que maioria não acredita que este bull market dure muito mais tempo.

Este sentimento é natural pois ainda existem temas angustiantes e mal resolvidos que podem ser o próximo catalisador a afundar os mercados.

Desde 2015 que existe um fantasma em volta da economia chinesa devido ao amontoar do crédito às empresas e ao consumo.

Nos Estados Unidos as medidas protecionistas de Trump partem no sentido contrário à globalização levando a possíveis guerras comerciais.

Ora se tanto do Oriente como do Ocidente surgem sinais de alarme, aqui pela Europa não estamos muito melhor.

As eleições que se avizinham criam um clima de incerteza em torno do populismo e uma crise bancária, sem resolução aparente, pode deitar tudo a perder na zona Euro.

Estes assuntos, sem solução à vista, criam aquele nervoso miudinho a quem tem de pôr as fichas na mesa.

Quando se olha para o CAPE – preço por resultados ajustado ao ciclo económico – atingimos os máximos desde 2000, sugerindo uma possível mudança de rumo.

No entanto, se formos a investigar melhor o rácio, em 1995 já mostrava um sobreaquecimento dos mercados, com um valor de 25x contra a média de 17x.

E o que veio a acontecer posteriormente? A bolsa subiu 150% num espaço de cinco anos e quem ficou para trás perdeu um dos mais rápidos bull markets de sempre.

Mesmo depois da bolha da internet rebentar em 2000 a bolsa nunca mais voltou aos níveis de 1995.

Assim, arrisco-me a dizer que quantas mais pessoas desconfiam que a bolsa vai corrigir fortemente menos provável é que esta situação venha a acontecer.

Em particular quando uma recessão tão profunda como a 2008-09 está ainda tão presente.

As quedas abruptas só acontecem quando as pessoas são apanhadas desprevenidas.

Nas palavras do lendário Sir John Templeton: “Os bull markets nascem com o pessimismo, crescem com o ceticismo, amadurecem com o otimismo e morrem com a euforia”.

Eu diria que estamos naquele período de transição entre ceticismo e otimismo.

Para muitos a página já virou e agora temos de olhar para a frente enquanto que para outros os pesadelos do passado ainda assombram a economia global.

 

Por que é que os mercados sobem?

 

Os mercados têm vindo a subir desde novembro do ano passado sem mostrar abrandamento.

Este sentimento otimista até já contagiou Portugal e o nosso PSI-20 atingiu os 5.000 pontos.

Apesar de se atribuir muito deste crescimento ao presidente do Estados Unidos e à sua imagem de mestre do “The Art of the Deal”, a recuperação está mais relacionada com o que realmente se passa na economia.

Nos últimos anos têm existido situações pontuais que adiam sempre uma recuperação sustentada – a queda do petróleo em 2014, os receios na China em 2015 e o Brexit no ano passado.

Para 2016 previam-se três subidas nas taxas de juro pela Reserva Federal Americana – banco central dos Estados Unidos – mas as fragilidades globais colocaram essa tese de lado.

Todavia agora as coisas parecem estar a mudar e já este ano foram aumentadas as taxas de juro, três meses depois da subida anterior.

Se olharmos com mais detalhe, os números para a indústria andam bem animadores. O PMI – índice que indica a expansão ou contração da indústria – nos Estados Unidos, na zona Euro e na Ásia mostra que as fábricas estão bastante mais atarefadas.

Fonte: Bloomberg – acima de 50 significa expansão, abaixo contração.

Os Estados Unidos estão com pleno emprego que se espelha numa taxa de desemprego de 4,9% e o sentimento na Europa também está a melhorar segundo o índice da Comissão Europeia.

Também o petróleo tem estabilizado em volta dos $50 por barril e mesmo nos países emergentes, o Brasil e a Rússia, parecem estar a sair do ambiente de recessão dos últimos dois anos.

Com esta perspetiva de melhoria na economia global sugeri três ações do PSI-20 na Carta Empiricus que expõem o leitor a uma possibilidade de subida dos mercados.

Nos tempos que se avizinham poderá verificar-se uma correção, como em 2015 quando os mercados caíram em resposta à ansiedade criada em volta da economia chinesa e o S&P 500 recuou 12%, mas uma reversão agressiva parece improvável.

Mas como vimos inicialmente, medidas protecionistas e guerras comercias ameaçam o comércio internacional revertendo o esforço dos últimos anos para uma recuperação económica global.

O populismo não merece o credito que lhe é dado pelo recente ânimo nos mercados. No entanto, pode muito bem vir a destruí-lo.

Até para semana.