#44 – Uma espreitadela à economia do futuro

Quase todos acreditam que o progresso é inegável e indiscutivelmente melhor. Todavia, um dos problemas é que as novas tecnologias nem sempre funcionam como anunciado. Outro é que nem sempre estamos ajustados para as receber.

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Por 23 de Novembro de 2017

Caro leitor,

Uma das reivindicações das novas tendências é que as coisas têm de ser diferentes, modernas e novas.

Quase todos acreditam que o progresso é inegável e indiscutivelmente melhor.

Todavia, um dos problemas é que as novas tecnologias nem sempre funcionam como anunciado.

Outro é que nem sempre estamos ajustados para as receber.

 

Regresso ao futuro

 

Para nós o prazer antecipado do que nos é familiar é mais atraente do que as surpresas do desconhecido.

Além disso, da minha experiência, a maioria das novas tecnologias são uma perda de tempo.

A maioria das invenções são um fracasso e a maioria das novas boas ideias – em particular na política – são panaceias que são testadas e testadas novamente… quase sempre com desgosto.

Mas nestas duas semanas iremos regressar ao futuro, para tentar ligar os pontos entre tecnologia, investimento e a economia do futuro.

E vamos começar por explorar um dos novos investimento “tech”, a construtura de veículos elétricos – a Tesla.

O gestor de ativos Harris Kupperman (autor do blog Adventures In Capitalism) proporciona-nos uma lista de invenções e inovações que foram esquecidas por outras invenções: Palm, Gateway, BlackBerry, GoPro, Fitbit, Handspring, Compaq, Blu-Ray, Garmin, DeLorean, Casio, Sega, Tamagotchi, TiVo, Betamax, AOL, Walkman, Kodak, Atari, Napster, Netscape e a Polaroid.

E a questão que está em cima da mesa é: será que a Telsa vai juntar-se à lista?

Muitas pessoas pensam que tal possa acontecer.

Os investidores que apostam contra as ações da Tesla são mais que muitos, ao mesmo tempo que a empresa está a ficar sem dinheiro.

Por outro lado, o CEO da empresa, Elon Musk, é um génio.

Se quer viajar até Marte e tem muito dinheiro, ele é provavelmente a pessoa com quem deve falar.

Mas se não quer ir até Marte e quer apenas aproveitar a vida na Terra, o melhor é afastar-se dele.

Apesar de o dinheiro entrar na empresa de Musk, raramente volta a sair.

 

Jonh DeLorean, descansa em paz

 

Como funciona o capitalismo?

As pessoas colocam as suas poupanças em novos projetos na esperança de as receberem de volta… e com algum rendimento.

Esta última parte, “algum rendimento”, é importante.

É a medida de sucesso do projeto. Os comunicados de imprensa não interessam. A formalidade dos resultados anteriores são uma distração. A nível de celebridade do fundador, também não é importante.

O que realmente importa é o dinheiro a entrar… e o dinheiro a sair.

Se o capital investido entra, mas depois não sai, é uma perda e os investidores ficam mais pobres.

O mundo também ficou mais pobre, pois tem menos capital disponível para outros projetos ou consumo.

Até agora, a Tesla apenas tem destruído capital, mas o seu valor de mercado é de $53 mil milhões.

Este valor é mais alto do que o da Ford, apesar de esta apresentar resultados de $4,6 mil milhões no ano passado e a Tesla ter perdido $675 milhões.

E a Tesla tem um valor de mercado quase tão alto como o da GM, que teve um resultado líquido de mais de $9 mil milhões em 2016… e que vendeu mais de 10 milhões de veículos contra os 76.000 da Tesla.

E as perdas estão cada vez maiores.

Apenas no último trimestre, desapareceram $619 milhões.

Para compreendermos isto tivemos que puxar pelas nossas memórias de infância.

A imagem do DeLorean, criado pelo fundador John DeLorean, vem-nos à cabeça.

O DMC-12 era elegante, “futurístico”, já foi um dos mais inovadores automóveis alguma vez comercializados.

Era o carro da trilogia “Regresso ao futuro”.

 

 

John DeLorean fundou a sua empresa – a DMC – em 1975 e ao longo dos anos ele recebeu – e destruiu – cerca de $100 milhões.

No final, ele estava tão desesperado por financiamento, que acabou um alvo fácil para o programa de “ciladas” do FBI.

Os agentes, fazendo-se passar por investidores, convenceram-no a importar $24 milhões de cocaína e gravaram as conversas.

O DeLorean safou-se das acusações, mas a DMC abriu falência em 1982.

Mais tarde, enfrentou diversos processos dos investidores e das pessoas que compraram o carro e que acabaram por levá-lo à falência pessoal.

Em 2000, perdeu a sua casa.

Acabou por perder a cabeça também e, após um ataque cardíaco, acabou por falecer em 2005.

Isto foi na altura.

Atualmente, Kupperman fez a seguinte questão: “Quando é que as ações da Tesla irão finamente implodir?”.

Ao que ele próprio responde: “Na altura em que novos e melhores produtos chegarem ao mercado, as pessoas vão aperceber-se de que o vaidoso projeto de Elon Musk é uma incineradora de dinheiro. E esse momento está a chegar, rapidamente. Muito rapidamente”.

Até para semana,

Diogo Baltazar

Diogo Baltazar, CFA, Analista Financeiro Independente, CMVM

Diogo Baltazar tem mestrado em Engenharia e Gestão Industrial pelo Instituto Superior Técnico. Trabalhou como a analista e trader na área de investimentos da Fidelidade Companhia de Seguros. CFA Charterholder pelo CFA Institute. É analista financeiro independente registado na CMVM.