#57 – Capitalismo de vigilância

Na sexta-feira de manhã, enquanto passava os olhos pelas notícias a caminho da Empiricus, houve uma que se destacou por um analista ter usado o termo “capitalismo de vigilância” para descrever o novo tipo de modelo de negócio da Google, da Apple, da Amazon e do Facebook.

Maior Menor
22 de Fevereiro de 2018

Caro leitor,

Na sexta-feira de manhã, enquanto passava os olhos pelas notícias a caminho da Empiricus, houve uma que se destacou por um analista ter usado o termo “capitalismo de vigilância” para descrever o novo tipo de modelo de negócio da Google, da Apple, da Amazon e do Facebook.

A descrição é genial.

Quando soubemos que a NSA – National Security Agency – gravava e arquivava todas as conversas pelo mundo fora, ficámos irritados e revoltados pela forma como estas agências alimentam o Big Brother com os nossos detalhes mais íntimos.

Contudo, deixamos alegremente que a Alexa da Amazon oiça cada conversa que temos nas nossas casas.

Também não temos nenhum problema em deixar que a Siri espreite para o nosso iPhone enquanto colocamos as passwords das nossas contas bancárias.

Cerca de mil milhões de pessoas tem uma conta Gmail e mais de 2.2 mil milhões tem página no Facebook – isto representa cerca de 30% da população global e mais de 50% dos utilizadores de internet.

Estamos dispostos a partilhar com estas empresas informação pessoal, que se lhe perguntassem numa entrevista de emprego poderiam dar direito a um processo.

Lembre-se que há alguns meses, era possível usar a ferramenta automática de marketing digital do Facebook para enviar publicidade ao utilizadores que entrassem na categoria “Jew Hater” (tradução: “odeia judeus”).

Isto está muito errado a todos os níveis…

Acesso ilimitado

Assim, a Google, o Facebook, a Amazon e a Apple conhecem os detalhes da nossa vida privada.

Agregam os nossos desejos, hábitos e atividades na internet para depois venderem às agencias de publicidade.

Isto acontece porque nós deixamos que tenham acesso às nossas vidas em troca de algumas conveniências que os novos dispositivos nos trazem.

E vamos ser bem claros: eles têm acesso a esta informação praticamente de graça.

Ou seja, é verdade que o Facebook tem que comprar os servidores para armazenar toda esta informação e tem que pagar aos programadores para manterem o site e a infraestrutura a funcionar.

Mas mesmo assim, as margens operacionais do Facebook são de 50% e se adicionarmos os impostos, a margem líquida são uns impressionantes 40%.

Ainda mais absurdo é que, no caso da Amazon e da Apple, pagamos para terem acesso à nossa informação.

E não estamos a falar de trocos…

A informação sobre a nossa vida privada suporta o valor de mercado destas empresas em cerca de $2,7 biliões.

Estas quatro empresas estão no top 10 de maiores empresas dos Estados Unidos e três delas estão no top 5.

É óbvio que quando pensamos “na internet” é na verdade a internet da Google ou a internet como a Google a imagina.

Tudo flui pelo motor de busca da Google.

Se o leitor tiver uma empresa que vende online, o melhor é cumprir com os parâmetros do algoritmo da Google ou, simplesmente, não aparecerá nos resultados de procura.

Mas muitas vezes nós agradecemos ao Google por isto.

Lembro-me bem quando a minha caixa de correio estava cheia de emails do Viagra.

É verdade que a Google limpou uma parte da internet.

Ainda assim, eu preferia que o motor de busca fosse bastante melhor.

Tentar encontrar artigos antigos é quase impossível.

“A sua margem é a minha oportunidade”

Procurei no Google pela frase “Your margin is my opportunity” para ter um pouco de historial e saber ao certo quando é que Jeff Bezos a tinha dito.

Basicamente, obtive montes de resultados com as “top 10” de citações de Bezos.

Mas depois coloquei “when did Bezos say Your margin is my opportunity” (tradução: quando é que Bezos disse a sua margem é a minha oportunidade) e obtive os mesmos resultados.

Aparentemente, o Google não me quer dar a primeira fonte de informação relacionada com esta citação.

Mas isto não deixa de ser interessante.

Se pensarmos bem, as redes sociais odeiam a origem da informação.

Ninguém quer a verdade ou uma opinião refletida.

Tudo não passa de um circulo de informação de forma a moldar a sua intuição com opiniões mal formadas e crenças.

Da mesma forma, o Google também não deve adorar as fontes de informação originais.

Caso contrário, a internet não seria criada à sua imagem.

Mas voltando ao tema inicial, a tecnologia tem a tendência para ir na vanguarda da compreensão social e cultural.

Os humanos pensam primeiro em “podemos?” muito antes de colocarem a questão “devemos?”.

E a assim o capitalismo de vigilância tem emergido como a indústria dominadora nos últimos 10-15 anos.

Ainda não compreendemos as suas ramificações, mas estas empresas estão na frente da economia norte americana – e de um certo modo mundial – e do mercado de ações.

Como investidores, devemos ponderar se estas empresas conseguem ter ainda mais sucesso.

A questão “será que o Facebook consegue manter as suas margens de 40%?” é análoga à questão “será que as árvores crescem até ao céu?”.

Isto é apenas uma opinião – sem uma grande exatidão cientifica – mas já alguma vez considerou que o Facebook poderá estar no seu pico?

Que poderá existir uma bolha no capitalismo de vigilância?

Será que a história se repete?

Os reguladores europeus já começaram a atirar-se à Google atribuindo uma das multas mais altas de sempre por violações ao direito da concorrência.

E nos Estados Unidos o congresso também começa a considerar se estas empresas não serão quase monopólios.

Já vimos isto antes.

Havia uma altura em que o modelo de negócio da Microsoft parecia perfeito.

O Windows fez com que os computadores fossem fáceis de usar (o PC feito à imagem da Microsoft).

Depois em abril de 2000, a justiça norte-americana decretou que a Microsoft tinha violado o direito da concorrência e mandou que esta fosse partida em duas.

Nessa semana, o preço das ações caiu 16%, dos $44 para os $37.

Foram necessários 14 anos para que as ações da Microsoft voltassem para os $44.

Eu ficava atento a estas empresas de capitalismo de vigilância.

Parece que nos dias de hoje têm um modelo de negócio perfeito…

Até para a semana,

Diogo Baltazar