#58 – “Uma mente perturbada não irá tomar boas decisões”

Vejo Buffett como o melhor investidor da nossa época, que transformou uma pequena empresa de têxteis em declínio num verdadeiro império e que, acima de tudo, conseguiu ao longo do tempo ter retornos bastante elevados e consistentes sem se desviar da sua estratégia

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1 de Março de 2018

Caro leitor,

Ler a carta anual ao acionista de Warren Buffett é sempre muito elucidativo e este ano não foi diferente.

Com a sua forma caricata de explicar o conceito financeiro mais complexo, consegue sempre inspirar o pensamento e a forma como gerimos a nossa vida financeira.

Dos diversos tópicos que são abordados por Buffett e pelo seu colega Munger existem sempre alguns que se destacam por serem válidos independentemente da era em que vivemos.

Vejo Buffett como o melhor investidor da nossa época, que transformou uma pequena empresa de têxteis em declínio num verdadeiro império e que, acima de tudo, conseguiu ao longo do tempo ter retornos bastante elevados e consistentes sem se desviar da sua estratégia, como podemos ver na primeira página da carta:

 

Fonte: Berkshire Hathaway Letter to Shareholders 2017

 

Sobreavaliação dificulta aquisições

Na carta deste ano, Buffett revela a sua frustração em conseguir fazer uma aquisição relevante para a Berkshire.

De acordo com Buffett, os CEOs de empresas que têm aquela vontade de se mostrar estão a ser incentivados pelas administrações e por Wall Street para conseguirem um negócio a qualquer preço, pois num mundo onde o crédito está barato isto leva a uma maneira fácil de crescer os resultados.

Contudo, Buffett usa quatro critérios para decidir quando comprar uma empresa: vantagem competitiva, gestão de elevada qualidade, bom retorno sobre os ativos e um preço sensato.

E é neste último critério onde diz estar com dificuldades.

Por um lado, dá-nos a sua perceção de que o mercado esta sobrevalorizado.

Esta parte já não é surpresa para ninguém e a avaliação da maioria dos ativos encontra-se acima da média histórica.

Isto é verdade para as ações, para as obrigações e para a maioria das classes de ativos.

Por outro, demonstra a dificuldade em adquirir uma empresa grande, de qualidade e ao mesmo tempo barata.

Certamente, o problema não é o dinheiro, já que a Berkshire tem $116 mil milhões em caixa e bilhetes do tesouro, e nem falta de vontade, onde Buffett admite que este nível é acima do desejado por ele e por Charlie Munger.

Claro que Buffett gostava de fazer uma nova aquisição, mas a sua experiência e capacidade de espera fazem com que não corra atrás dos elevados preços apenas para conseguir uma aquisição.

A sua resistência em manter o dinheiro com um rendimento muito baixo em vez de o usar numa aquisição de baixo retorno é impressionante – uma das grandes lições da sua estratégia.

Ninguém está livre de perdas

Todavia, para muitos as ações da Berkshire são vistas como um porto seguro – uma ação com pouco risco e com retornos consistentes ainda para depositar.

Mas este ano Buffett dedicou uma secção para lembrar os leitores que a empresa não é imune a quedas abruptas, apresentando o seguinte quadro:

 

Fonte: Berkshire Hathaway Letter to Shareholders 2017

O quadro mostra as quatro grandes quedas que as ações da Berkshire sofreram nos últimos 53 anos e mesmo com os impressionantes retornos que lhe mostrámos no início, a Berkshire não está imune aos caprichos do mercado.

Buffett quer assim reforçar o argumento de que não se deve usar alavancagem para comprar ações – nem mesmo as da Berkshire.

No curto prazo é impossível prever quão grande grave vai ser uma queda.

E por isso, quando se tem uma posição alavancada é muito fácil ficar-se nervoso quando o mercado começa a cair, pois as perdas são muito maiores e pode mesmo ficar-se a dever ao banco.

E como Warren Buffett garante: “Uma mente perturbada não irá toma boas decisões.”

Se já é complicado controlar as nossas emoções com a típica volatilidade das ações, imagine agora quando esta é 2x ou 3x superior devido ao efeito da alavancagem.

E deixa-nos assim mais uma lição: “quando as grandes quedas ocorrem, porém, oferecem oportunidades extraordinárias para aqueles que não estão debilitados pela dívida”.

Até para a semana,

Diogo Baltazar