#59 – A fatura irá chegar

Trump ganhou as eleições em parte porque prometeu que iria gastar dinheiro – que iria gastar mais na defesa, na construção do muro, cortar impostos e largar milhares de milhões em infraestruturas.

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8 de Março de 2018

Caro leitor,

Hoje vamos falar sobre obrigações.

Não? A sério?

As obrigações são a espinha dorsal da economia mundial e têm um valor 10 vezes superior ao do S&P 500.

Basicamente são as obrigações que fazem o mundo girar.

E as recentes quedas das bolsas são, em parte, devido a uma reação à subida das taxas de juro das obrigações norte-americanas.

Quando estas sobem muito rapidamente, todos os países com reservas em dólares – leia-se têm obrigações do tesouro norte-americano – começam a perder dinheiro, como é o caso do Japão ou da China.

Se as obrigações do tesouro norte-americano (Treasuries) continuarem a cair – que significa que as yields (taxas de juro) estão a subir, pois funcionam inversamente em relação ao preço – os restantes países vão começar a perder dinheiro naquilo que é considerado o ativo mais seguro do mundo.

Não é suposto funcionar assim…

Comprar alto para vender baixo

Por norma os bancos centrais não compram Treasuries com o objetivo de um lucro potencial.

Funciona mais como uma conta bancária, onde podem colocar todos os milhares de milhões, receber um ou dois por cento em juros e vender facilmente quando necessitam.

Acontece que este entendimento acaba quando se começa a perder dinheiro.

E estamos num desses momentos.

Veja este gráfico:

 

Fonte: Bloomberg

 

Este é o gráfico das taxas de juro (yield) norte-americanas há 10 anos.

yield duplicou nos últimos 18 meses e quando esta sobe significa que os preços descem.

E existem algumas razões para que as Treasuries tenham vindo a cair nos últimos tempos.

Primeiro, a Reserva Federal tem vindo a subir as taxas de juro de referência.

As taxas de juro têm sido mantidas artificialmente baixas durante anos.

Desde a crise financeira que o banco central, de uma forma artificial, através dos programas de compra de ativos (conhecido como quantitative easing), tem mantido as taxas de juro baixas na esperança de uma recuperação do crédito e do investimento.

Em segundo lugar, a inflação nos Estados Unidos tem começado a subir, devido essencialmente a um mercado de trabalho muito competitivo.

A antiga presidente da Reserva Federal, Janet Yellen, começou assim a aumentar progressivamente as taxas de juro reconhecendo, que com uma taxa de desemprego baixa, os salários e a inflação deveriam começar a subir, afirmando que era estranho isto ainda não ter acontecido.

E estava correcta.

Este ano espera-se um aumento da inflação nos EUA para os 2,15%, com fortes sinalizações no final do ano passado.

E em terceiro lugar, temos a coincidência (ou não!) de que as yields começaram a subir assim que Trump foi eleito.

Gastar, gastar, gastar

Trump ganhou as eleições em parte porque prometeu que iria gastar dinheiro – que iria gastar mais na defesa, na construção do muro, cortar impostos e largar milhares de milhões em infraestruturas.

Se acha que diminuir os impostos irá criar um crescimento desenfreado gerando novos impostos para cobrir os cortes, engana-se.

Não existe grande evidência para suportar isto e o mercado de obrigações sabe disso…

Por isso é que as yields disparam depois das eleições.

O mercado de obrigações percebe perfeitamente que as políticas do Trump apenas significam gastar mais, maior défice e que os Estados Unidos terão que emitir mais obrigações do tesouro – e em níveis recorde.

Ora, John Maynard Keynes tem nestas alturas má reputação, pois os críticos afirmam que a escola Keynesiana promove défices sistematicamente.

Todavia, isto não é bem verdade.

Claro, que quando uma economia está em dificuldades Keynes afirmou que o Estado deve emitir mais dívida para promover o crescimento económico.

Mas também afirmou que quando a economia esta num boom, esta dívida deve ser paga.

E os Estados Unidos está a fazer o oposto disto…

Provavelmente irá incorrer em défices excessivos nos próximos anos.

E parece que o congresso norte-americano apoia esta situação.

Claro que toda esta despesa irá gerar crescimento, sem dúvida.

Mas também irá impulsionar a inflação, necessitar de emitir mais dívida e fazer com que fique mais difícil para os Estados Unidos pagar a dívida.

Com os bancos centrais a contraírem os balanços, os EUA vão estar a pedir emprestado numa altura em irá haver menos dinheiro disponível.

Este cenário pode muito bem acabar com o atual bull market.

Não será já amanhã, pois estes eventos demoram a ter impacto nos mercados.

Provavelmente ainda veremos uma última subida do touro.

Contudo, a fatura irá chegar e o mercado de obrigações sabe-o.

Até para a semana,

Diogo Baltazar