#63 – O risco das manchetes

As manchetes dos jornais – muitas alarmistas e exageradas – têm determinado o comportamento do mercado de ações ultimamente.

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Por 6 de Abril de 2018

Caro leitor,

As manchetes dos jornais – muitas alarmistas e exageradas – têm determinado o comportamento do mercado de ações ultimamente.

A maioria das pessoas mexem-se em grupos e tipicamente, compram quando os preços já subiram e vendem quando os preços já caíram.

E é aqui que está o poder das manchetes.

O primeiro trimestre de 2018 já acabou e podemos concluir que foi bastante turbulento e enervante.

E com isto, o risco das manchetes.

Ao mínimo sinal de más notícias ou de um impulso de Trump e as ações entram numa espiral negativa.

O escândalo do Facebook/Cambridge Analytica tem pesado nas ações FAANG (Facebook, Apple, Amazon, Netflix e a empresa mãe do Google, a Alphabet).

As cinco ações têm sofrido quedas elevadas nas últimas semanas, apesar de nesta última semana já estar mais calmo.

 

Apanhado na teia do Facebook…

 

Neste ano de 2018, o risco de manchete aumentou e o Facebook e as restantes empresas tecnológicas têm sido vítimas deste tipo de risco.

Todos os dias a rede social tem recebido uma cobertura negativa por parte da imprensa financeira, e na sexta-feira foi divulgado um excerto de um comunicado interno do Facebook que defendia a estratégia da empresa mesmo que isso tivesse de matar alguém:

“Nós unimos as pessoas. Ponto. Por isso é que todo o trabalho que fazemos de crescimento é justificado… Pode ser mau se o levarem para o lado negativo. Talvez custe a vida a uma pessoa por ser exposta a bulling. Talvez alguém irá morrer num ataque terrorista coordenado com as nossas ferramentas. E mesmo assim nós continuamos a unir as pessoas.”

Isto é bastante chocante e amoral, até para uma empresa do Silicon Valley…

E assim, a recente queda do Facebook está destinada a pesar sobre todo o sector e a empresa merece a atual fase negativa pela qual está a passar.

Contudo, outras empresas tecnológicas inocentes irão ser injustamente arrastadas pelo movimento do mercado.

Já a euforia do IPOs continua com a entrada em bolsa do Spotify e no mês passado da Dropbox – duas empresas sem resultados positivos, mas avaliadas em mais de $26 mil milhões e $12 mil milhões, respectivamente.

Com a continuação destes altos e baixos nas tecnológicas que pendem entre uma bolha e uma queda catastrófica, deixo-lhe aqui alguns conselhos para quando o risco de manchetes surge e a manada começa a se dirigir toda no mesmo sentido.

A bolha holandesa

 

Num dos clássicos da literatura financeira – e que eu recomendo vivamente – Charles Mackay, no seu livro do século XIX, “Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds” (TR: “Extraordinárias ilusões populares e a loucura das multidões”), descreve a tendência dos investidores em comportarem-se como cordeirinhos:

“Em 1953, nenhum holandês tinha sequer visto uma tulipa. A sua beleza e raridade tornou-se um luxo nacional. Em pouco tempo, tornou-se “moda” conforme os aristocratas ostentavam as flores exóticas como símbolos de poder e prestigio… Apesar da oferta apenas podia crescer à velocidade que a natureza permitia, a procura pelas tulipas acelerou com um tom febril.

Cedo, todos os estratos da sociedade holandesa estavam envolvidos numa maluqueira comercial de tulipas que teve o seu apogeu no início da década de 1630, vendendo “futuros” de plantações que ainda não tinham crescido ou sido colhidas. No final, as sementes das plantações ainda na terra foram compradas e vendidas tantas vezes que foram chamadas de transações de “vento” (pois os preços especulativos provinham do ar).

Após o mercado ser ter espatifado em 1637, levando muitos à falência, a época veio a ficar conhecida como a “Tupiamania”.”

Na passagem acima referida por Mackay, substitua “tulipa” por “IPO de redes sociais” e vai chegar à conclusão que nada tem mudado nos últimos quatro séculos.

Para evitar que seja puxado pelas mesmas manias, aqui ficam os indicadores que deve ter em atenção:

“A imprensa financeira repete sistematicamente os mesmos pontos de vista sobre a mesma tendência.”

As pessoas que por norma falam na comunicação social não são especialistas.

Tipicamente são generalistas que representam o senso comum.

Por exemplo, se um comentador refere que uma empresa está em maus lençóis, provavelmente significa que os perigos dessa empresa já devem ter chegado ao pico e que o medo já é desproporcional.

“Uma empresa com fundamentais sólidos está a ser injustamente pressionada pela comunicação social e os analistas, levando a que os preços caiam até um nível muito baixo.”

Mesmo que uma empresa esteja rodeada de má publicidade e o preço das ações estejam a cair a pique, pode ser uma oportunidade de compra.

Olhe para os fundamentais da empresa, pois é isso que na verdade interessa e que nos leva a concluir se existe fundamento para a queda ou é apenas burburinho.

A má publicidade de apenas rumores tende a desaparecer à mesma velocidade que veio.

“Uma empresa fundamentalmente débil é que está a liderar a onda de uma publicidade positiva.”

Com um exagero de cobertura de uma empresa com fracos fundamentais pode anunciar uma queda.

Esta dinâmica é particularmente evidente no sector tecnológico, onde empresas com os últimos produtos da moda consegue cobertura dos meios e a graça dos consumidores.

No meio desta divulgação toda por norma fica a faltar a avaliação do balanço.

“A disposição dos investidores é persistentemente sombria.”

Se o mercado de ações está muito pessimista e todos estão a fugir das ações como o Super-homem foge do Kryptonite, então é porque um bull makert deve estar iminente.

Quando o pessimismo se instala, então só pode subir.

“O mercado de ações está numa subida vertiginosa, alimentada a euforia.”

Já diz o ditado que quando um taxista lhe recomendar ações, então está na altura de vender.

Quando todos tiverem dentro da euforia das ações é porque chegámos ao apogeu.

Os investidores por norma compram quando acham que as ações vão subir e vendem quando antecipam uma queda no mercado.

Mas se todos estiverem à espera pela subida da bolsa, então provavelmente quem queria comprar já comprou.

E quem é que ficou para impulsionar os preços ainda mais para cima?

Os holandeses aprenderam a lição da pior maneira.

Até para a semana,

Diogo Baltazar

Diogo Baltazar, CFA, Analista Financeiro Independente, CMVM

Diogo Baltazar tem mestrado em Engenharia e Gestão Industrial pelo Instituto Superior Técnico. Trabalhou como a analista e trader na área de investimentos da Fidelidade Companhia de Seguros. CFA Charterholder pelo CFA Institute. É analista financeiro independente registado na CMVM.