#11 – A galinha dos ovos de ouro de volta a casa

A estratégia passa por trazer de volta a casa a galinha dos ovos de ouro. De tal forma que na segunda-feira passada depois de a bolsa fechar, a EDP lançou uma OPA sobre a EDP Renováveis.

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31 de Março de 2017

Caro leitor,

Desde cedo que a história que lhe vou contar tinha uma morte anunciada.

Numa aldeia muito longínqua, a vida de Santiago estava ameaçada.

Os gémeos Pablo e Pedro queriam vingar a desonra da sua irmã Angela e na procura incessante por Santiago, os irmãos viraram a aldeia do avesso ficando todos a saber que a vida de Santiago corria risco.

No entanto, ninguém fez alguma coisa para que isso mudasse.

Quem leu o livro Crónica de uma Morte Anunciada de Gabriel Garcia Márquez conhece bem a história.

Lembrei-me desta narrativa a propósito das mais recentes notícias acerca da EDP Renováveis e de como estava condenada, à partida, a sair da bolsa.

Na verdade, quando a EDP lançou a EDP Renováveis em 2008 vendendo apenas 22,5% da empresa estava a enviar um sinal de que não estava disposta a abrir mão do negócio das renováveis.

Por norma num spin-off bem sucedido a empresa mãe vende mais de 50% das ações em bolsa, o que não aconteceu neste caso.

Aqui havia gato.

 

O tempo provou que a EDP Renováveis veio a tornar-se o segmento mais rentável da EDP, como vamos ver mais à frente, e agora a estratégia passa por trazer de volta a casa a galinha dos ovos de ouro.

De tal forma que na segunda-feira passada depois de a bolsa fechar, a EDP lançou uma OPA sobre a EDP Renováveis.

Uma OPA – oferta pública de aquisição – significa que a EDP está a tentar comprar a restante participação de 22,5% que lhe falta para ter novamente 100% da empresa.

Se resultar, nada de novo.

A ENEL e a Iberdrola já tinham feito operações semelhantes.

Mas por falar em passado, recuemos um pouco mais na História.

Em 2008 a EDP Renováveis entrou na bolsa com um preço de €8 por ação, mesmo no pico do mercado e antes da crise.

A energética nacional capitalizou-se e agora está a tentar comprar aquilo que já foi seu por um preço bem mais barato de €6,8 por ação.

Quem não deve estar muito satisfeito são os acionistas que compraram na altura.

Não digo que tudo isto tenha sido uma conspiração para enganar os acionistas da EDP Renováveis, mas se a EDP estivesse mesmo disponível para vender a totalidade do negócio já o tinha feito, em várias situações, ao longo dos últimos anos.

Caso o leitor seja acionista da empresa é muito provável que o seu gestor de conta o contacte no decorrer da operação para saber se está interessado em ir à OPA.

O passo seguinte será enviar-lhe um e-mail com o prospeto da operação longo e complexo onde provavelmente não vai perceber do que se trata (nem eu percebo por vezes aquela linguagem).

Mas não se assuste, explicar-lhe-ei já de seguida tudo o que precisa de saber sobre esta OPA.

 

Quais as razões para a EDP estar a comprar agora a EDP Renováveis?

 

Em primeiro lugar a EDP Renováveis é o grande impulsionador de crescimento da EDP.

O plano da EDP é adquirir mais 12,5% da EDP Renováveis para ficar com pelo menos 90% da empresa e depois lançar uma OPA mandatória, onde os acionistas serão obrigados a vender.

Assim, e caso a oferta tenha sucesso, em vez de apenas consolidar 77,5% passará a consolidar 100% dos resultados da EDP Renováveis e ficar menos dependente do mercado interno português, em grande parte regulado.

Porquê esta aposta agora, deve estar a perguntar-se.

A EDP Renováveis tem um passado sólido com provas dadas na entrega de projetos dentro dos tempos previstos e um orçamento que gera retornos atrativos.

Depois de completar os projetos e de demonstrar a suas potencialidades, a empresa tem conseguido vendê-los a um preço mais alto do que o investido, diminuindo o risco regulatório (alteração dos preços da eletricidade para as eólicas, por norma fixos e regulados).

A empresa vende alguns dos projetos já finalizados para financiar novos e potenciar o seu crescimento.

Enquanto nos ativos regulados a EDP não pode expandir e gerar crescimento, na EDP Renováveis existe esse potencial.

Este não é um negócio que me seja estranho, pois no Carta Empiricus, já recomendei uma ação do mesmo sector.

Para o leitor ter uma noção, a EDP Renováveis representa cerca de 23% dos resultados operacionais, tem um crescimento de 62% nos últimos 6 anos e é o grande cash cow da EDP.

Outra razão pela qual a oferta foi feita agora é porque as ações estão baratas.

O valor da EDP Renováveis, sendo mais ou menos otimista, varia entre os €6,5-8 por ação.

Mas há mais.

Com uma OPA a €6,8 por ação, a EDP está a preparar-se para pagar mais próximo do extremo mínimo da valorização e fazer um bom negócio para os seus acionistas.

Mas nem tudo são rosas.

Se os acionistas da EDP Renováveis acharem que a operação não tem um preço justo, não irão vender e a OPA fica sem efeito.

Que consequências daí advirão?

A EDP terá que rever o preço da OPA em alta ou desistir da compra.

Qual o pior cenário?

Ficar com ações de uma empresa que vai ficar sem liquidez.

Se a OPA não tiver sucesso, o mais provável é que a liquidez no mercado seque.

Para uma ação que já é considerada com fraca liquidez pelo próprio presidente da EDP, a situação ficará ainda pior.

Apesar de António Mexia ter feito questão de dizer que tem interesse em tirar a EDP Renováveis da bolsa, o risco de ficar sem liquidez e com um preço inferior é bastante proeminente.

Veja bem: o mercado está neste momento a cotar a €6,9 por ação, acima do preço da oferta da EDP.

Logo, parece lógico que o melhor é vender já em bolsa acima do preço da OPA, que na altura desta publicação dava num ganho extra de 10 cêntimos.

Até para a semana.