#08 – Não compre ações do Snapchat antes de ler isto

Na semana passada a Snap Inc, empresa que desenvolveu a aplicação Snapchat, causou sensação com a sua estreia em bolsa.

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8 de Março de 2017

Caro leitor,

Na semana passada a Snap Inc, empresa que desenvolveu a aplicação Snapchat, causou sensação com a sua estreia em bolsa.

Para quem não sabe, a Snapchat é uma rede social com cerca de 160 milhões de utilizadores diários sendo particularmente popular entre as gerações mais novas.

Para lhe dizer a verdade, nem sei muito bem para que serve a aplicação, e acredito que muitos dos leitores partilhem a mesma estranheza.

Tive de pedir à minha afilhada que me mostrasse como funciona e para que serve.

 

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Entre alguns embaraços e deslizes no ecrã lá percebi que posso tirar, alterar e editar fotografias e vídeos para enviar aos amigos.

Além disto, é possível fazer histórias com os Snaps que se vão tirando ao longo do dia.

As receitas da empresa são geradas através de publicidade que surge entre as visualizações.

No entanto, a aplicação está de tal forma distante dos possíveis acionistas que no prospeto do IPO – Initial Public Offering – tinha um manual de utilização com imagens descritivas de como a aplicação realmente funciona.

Um IPO é uma oferta pública de venda, onde empresas vendem ações para angariar fundos e os atuais acionistas alienam parte ou a totalidade da sua participação ao público em geral.

Bobby Murphy e Evan Spiegel, co-fundadores da empresa de social media, venderam cerca de 16 milhões de ações cada na passada quinta-feira e com esta operação cada um arrecadou cerca de $272 milhões.

Mesmo tendo vendido parte das ações continuam com 88% dos votos.

Mas para mim o extraordinário nesta operação, e sem precedentes, é que as ações subscritas no IPO não têm direito de voto.

Sim leu bem… foram vendidas ações que não dão sequer o direito de votar nas propostas da assembleia da empresa da qual são donos!

Mais, a empresa nunca apresentou resultados positivos, tendo perdas no valor de $515 milhões em 2016.

Contudo, o IPO foi um sucesso e teve uma procura superior à oferta de ações.

Isto parece bizarro já que a maioria das pessoas que tem interesse por este tipo de empresas tecnológicas e dinheiro para subscrever ações está na mesma situação que eu… nem sabe para que serve a aplicação.

A empresa vendeu as ações na oferta pública a $17 por ação, estando a empresa avaliada em cerca de $20 mil milhões.

No primeiro dia o preço de abertura disparou para $24.

Na minha opinião as pessoas que subscreveram o IPO ignoraram por completo o governance da empresa e a falta de resultados, e compraram apenas para entrar no mercado sobreaquecido das tecnológicas, um sector que se tem dado muito bem em 2017 (desde o início do ano subiu 9,60% contra 6,44% do S&P 500).

Investimentos com objetivo puro de especular sem motivos fundamentais não é para mim, até porque, as últimas cinco empresas tecnológicas nos Estados Unidos com uma valorização superior a mil milhões – Groupon, Zynga, Facebook, Twitter e Fitbit – caíram todas a pique no primeiro ano.

Apenas o Facebook recuperou dessa queda, mas ao contrário da Snap, já apresentava resultados positivos na sua estreia em bolsa.

No final dos anos 90 e início de 2000, muitas das tecnológicas tinham 20-30 milhões em faturação e geravam fluxos de caixa pela altura do IPO.

Vendiam as suas ações ao público e usavam o dinheiro para investir no crescimento e amadurecimento do negócio.

Mas hoje em dia é diferente.

Depois da crise de 2008-09 o número de IPOs em empresas tecnológicas diminuiu.

Em 2014, o montante foi especialmente elevado devido ao mediático IPO da Alibaba, que bateu todos os recordes anteriores.

O “Ebay chinês” conseguiu angariar $25 mil milhões, tendo sido a companhia avaliada em $231 mil milhões no final do primeiro dia de transação.

 

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Com a diminuição dos IPOs, muitos dos investidores que suportaram os custos iniciais das pequenas empresas tecnológicas, as conhecidasstartups, estão agarrados ao investimento, em muitos casos, há mais de 5 anos.

Normalmente, as startups iniciam o seu negócio com o financiamento de fundos de venture capital (VC) ou Business Angels, que decidem arriscar capital no início do negócio mesmo quando este é apenas uma ideia.

O método de investimento VC passa por investir em muitas startups para diversificarem as suas oportunidades.

Os gestores dos fundos sabem que a maioria não vai dar em nada, mas que bastará um investimento correto para multiplicarem várias vezes o seu investimento inicial.

O Pedro na sua série mostra-lhe como replicar esta estratégia na sua carteira.

O leitor certamente já se deve ter apercebido da agitação em volta dasstartups quando no ano passado Lisboa foi a cidade anfitriã do evento Web Summit.

Este evento serviu para que empresas pequenas na área da tecnologia procurassem financiamento para as suas ideias.

No entanto, o objetivo dos investidores que inicialmente financiam as empresas é muito claro: entram, esperam que a empresa apresente alguns números interessantes e, depois querem sair e realizar as mais-valias.

Daí que uma das soluções para vender as suas participações é através da entrada em bolsa, o IPO.

Comecei com uma visão muito negativa do IPO da Snap, no entanto, nunca se sabe onde vai estar a próxima Google, Microsoft ou Amazon.

A Amazon, em particular, teve nos primeiros 5 anos sem apresentar resultados positivos para depois vir a ser uma das maiores empresas de e-commerce do mundo e desde de 2008 que a sua valorização multiplicou 16x.

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Fonte: Bloomberg – Amazon.com

Como lhe disse anteriormente, não gosto dos números e do governance da Snap, mas existe uma estratégia que pode incluir este tipo de empresas.

Apesar dos riscos, neste tipo de investimento existem sempre oportunidades que podem ser aproveitadas e que geram retornos fora do normal.

Na semana passada falei-lhe dos cisnes negros positivos e do quanto é necessário estar exposto a eles para que estes possam ocorrer na vida.

O investimento em empresas tecnológicas dá-lhe a possibilidade de estar exposto à inovação, o que se traduz em pequenas empresas que se tornam em negócios de muitos milhões.

Apenas com esta filosofia faz sentido um investimento na Snap.

Porém, dado o elevado risco – probabilidade de perda – deste tipo de empresas, reforço mais uma vez, que não deve investir todo o seu património neste tipo de ativos.

Este é um bom exemplo para explicar aquilo que eu digo quanto à diversificação como princípio fundamental na construção de uma carteira de investimentos.

Resumindo: mesmo na fatia alocada para ações, onde grande parte deve estar em empresas de qualidade, existe capacidade para investimentos de alto risco, desde que se respeite o princípio da diversificação.

Pense comigo… se distribuir o investimento por várias empresas as suas probabilidades de acertar são maiores.

Se escolher só uma… pode ir à falência. E kaputtgame over para si.

Em suma, caso o leitor esteja disposto a correr riscos elevados, mas com contrapartidas de retornos fora do normal, vai ver que existe espaço na sua carteira para este tipo de investimentos se aplicar a estratégia correta.

Até para a semana.