#07 – Uma subida de 30 por cento para a bolsa

Nós, humanos, não somos muito bons a prever o futuro e por vezes fazemos generalizações simplesmente porque não conhecemos para além do nosso universo, criando conceitos e regras em volta do nosso conhecimento.

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2 de Março de 2017

Caro leitor,

Por vezes um acontecimento imprevisto altera o modo como vemos as coisas.

Quando os ocidentais descobriram a Austrália um dos achados que os surpreendeu foi a existência de cisnes negros.

Até então, apenas eram conhecidos cisnes brancos.

De tal forma que a expressão “cisne negro” servia para descrever algo que era impossível.

A frase era bastante popular na época, mas depois da descoberta de cisnes negros na Austrália, perdeu por completo o significado que tinha.

No entanto, continuou a ser usada, mas com um significado bastante mais profundo.

Deixou de descrever apenas um evento impossível para passar a descrever um evento que é visto como impossível, mas que mais tarde vem a ser provado como possível.

Por outras palavras, um evento que não pode ser previsto.

E por essa razão, apenas pode ser conhecido depois de acontecer.

Nós, humanos, não somos muito bons a prever o futuro e por vezes fazemos generalizações simplesmente porque não conhecemos para além do nosso universo, criando conceitos e regras em volta do nosso conhecimento.

Se apenas vemos cisnes brancos imediatamente concluímos que só existem cisnes brancos.

Mas por vezes existem cisnes negros.

Em 2007, Nassim Taleb desenvolveu uma teoria por detrás do conceito do “cisne negro” – um evento raro, de alto impacto e imprevisível.

Do ponto de vista do professor, os cisnes negros podem ser positivos ou negativos e o nosso objetivo é procurar exposição aos positivos e evitar exposição aos negativos.

O caso da penicilina é um exemplo prático de um cisne negro positivo.

Depois de umas longas férias, Alexander Fleming reparou que tinha deixado Staphylococcus exposto ao ar e que este estava contaminado por bolor.

Para espanto dele não existiam sinais de bactérias.

Se Fleming não fosse químico e não trabalhasse com bactérias, dificilmente teria descoberto a penicilina.

Por isso, caro leitor, lembre-se que para ocorrerem cisnes negros positivos é necessário estar exposto a eles.

A maioria das pessoas não percebem quando têm um golpe de sorte.

 

Se o leitor nunca der uma hipótese para estar exposto aos cisnes negros positivos, estes nunca lhe irão acontecer na vida.

 

E nesta história há ainda uma dualidade: é que se por um lado queremos estar expostos a cisnes negros positivos, por outro, queremos evitar a exposição aos cisnes negros negativos.

Exemplos? O crash da bolsa de 2007-08, que deu origem à grande recessão, é um cisne negro negativo ao qual não queremos estar expostos.

A maioria de nós em 2007 nunca tinha tido a experiência de uma crise dessa dimensão.

Se este evento foi uma grande surpresa para a maioria dos analistas e economistas que estudam os mercados todos os dias, imagine para o cidadão comum.

Assim, estávamos perante um evento raro que aparece a cada 100 anos, que a maioria não conseguiu prever e que teve um impacto extremo, tanto economicamente como socialmente.

Na sequência, Portugal entrou numa crise económica, onde mais uma vez, não era assim tão óbvia para a maioria das pessoas (inclusivamente para mim!).

Esta situação teve reflexos óbvios na bolsa portuguesa, estando em mínimos desde os anos 90.

 

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Está na hora de investir no PSI-20?

 

Se perguntar a alguém se quer investir no PSI-20, a resposta mais provável vai ser: “Nem pensar! Já viu o que aconteceu à PT, ao BES, ao BCP…?”

Com as dificuldades económicas que o país ainda atravessa a nossa bolsa continua a ser uma carta fora do baralho para muitos gestores de fundos e analistas.

Nesta situação qual é o evento de “cisne negro” aqui?

Parece impossível que este ano a bolsa portuguesa venha a subir 30%, pensa a maioria.

Provavelmente este é o cenário que deve ser considerado como o “cisne negro”.

Se o PSI-20 subir 30% passa para uns 6.000 pontos, bem longe do máximo histórico de 14.822 pontos.

Estando o índice já tão batido as probabilidades parecem estar do lado da reviravolta.

Gosto da assimetria de uma possibilidade de perder um pouco com a possibilidade de ter um ganho elevado.

Para reforçar o argumento, a faturação das empresas do PSI-20 para fora de Portugal é cerca de 40%, levando a uma menor dependência à nossa economia.

Além de que muitas das empresas decadentes que colapsaram durante a crise já saíram do índice ou deixaram de ter um peso significativo.

A economia também começa a dar alguns sinais positivos e os portugueses mostram-se otimistas em relação a 2017 (Marktest).

Estou a ser demasiado otimista? Provavelmente.

No entanto, se quisermos pensar fora da caixa não podemos ter a ideia que muitos já tiveram.

Futurologia não é comigo, mas gosto de estar exposto aos cisnes positivos tentando evitar os negativos.

Para poder gozar dos frutos de um cisne negro positivo o leitor terá que se expor a ele.

Não sugiro que corra a investir todo o seu património nesta ideia, mas que possa dispor de uma parte com a qual se sente confortável.

No Carta Empiricus os meus colegas Pedro Gonçalves e Renato Breia recomendam-lhe as melhores formas de se expor a este cisne negro positivo, e ainda evitar os cisnes negros negativos.

Até para a semana,