A compreensão do risco

Repare que investir consiste apenas numa coisa: lidar com o futuro. E como a minha bola de cristal continua avariada, então o risco é inevitável. Por outras palavras; é impossível eliminar a incerteza do processo.

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Por 13 de Abril de 2018

.: Bola de cristal
.: Mundo de oportunidades
.: Teoria financeira
.: A casa vai abaixo
.: Risco e retorno

00:12 - Bola de cristal

Ontem conversava com o Diogo e ele perguntou-me: Pedro, para ti qual é “a coisa mais importante” no mundo dos investimentos?

Admito que tive de pensar um bocadinho, mas no final a minha resposta foi a COMPREENSÃO DO RISCO (desculpe o caps, mas é mesmo importante).

Repare que investir consiste apenas numa coisa: lidar com o futuro.

E como a minha bola de cristal continua avariada, então o risco é inevitável.

Por outras palavras; é impossível eliminar a incerteza do processo.

 

01:10 - Mundo de oportunidades

Em tese, não é difícil encontrar oportunidades para investir o seu dinheiro.

Todos os dias o mercado de ações está aberto das 8h às 21h00 (se considerarmos os dois lados do Atlântico).

Com um bocadinho de sorte, pode até ter sucesso no curto prazo. Para isso, basta entrar no momento certo naquela ação que divulgou ótimos resultados.

Mas uma coisa eu lhe garanto: é muito improvável que consiga sobreviver no longo prazo se não dominar o conceito de risco.

Pergunta o leitor: mas como?

Primeiro precisa compreender o que é isto do “risco”. Numa segunda fase, tem de reconhecer quando este é alto ou baixo.

E por último – a etapa crítica – precisa aprender como controlá-lo.

 

02:11 - Teoria financeira

A primeira questão é então: como é que definimos o risco? Como é que o quantificamos?

A teoria financeira há muito que elegeu a volatilidade (ou desvio padrão) como a medida matemática de risco.

Mas a volatilidade é mais uma medida de imprevisibilidade de um investimento ou dos seus fluxos de caixa.

Basicamente, diz-nos se o preço de determinado ativo flutua muito ou pouco para cima e para baixo e com que rapidez.

 

03:11 - A casa vai abaixo

Nunca ouvi ninguém dizer: “não vou investir na Apple, porque o preço varia muito.

A analogia do peru de Bertrand Russell é um testemunho que a ausência de volatilidade não é uma garantia que não existem riscos.

Lisboa parecia bastante estável até 1755. Os investidores de Bernie Madoff ganhavam 10% ao ano – “certinhos” – até 2008. Zero volatilidade. Até que um dia a casa vai abaixo.

Na verdade, ao longo da minha carreira as pessoas parecem-me mais preocupadas com a perda de capital ou com uma taxa de retorno demasiado baixa…

Ou seja, o risco, nesta perspetiva, será a probabilidade de perder dinheiro num investimento e, não se ele varia muito…

 

04:10 - Risco e retorno

Convenhamos que a possibilidade de perda de capital é o risco com que todos nós realmente nos preocupamos…

Afinal, custou-nos demasiado tempo para o conseguir acumular para agora desperdiçá-lo num investimento mal calculado e calibrado.

O trabalho de avaliação de risco não pode ser desassociado do método de apreciação do investimento como um todo.

Primeiro, porque o risco é uma coisa má. É pressuposto primário da teoria financeira de que as pessoas são naturalmente avessas ao risco, ou seja, as pessoas preferem incorrer em menos risco do que em mais.

Isto significa que cada vez que lhe é proposto um investimento, o leitor avalia o grau de risco e se consegue viver com a incerteza que advém da sua decisão.

Segundo, porque todas as decisões de investimentos são uma função de retorno vs. risco.

Isto é, só está disposto a correr mais risco, se o retorno for maior.

 

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.