A dívida de 11 milhões

Cada português carrega consigo 26 mil dólares de dívida. E sem crescimento económico, é impossível pagá-la.

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Por 29 de Novembro de 2016

.: Pelo que é público
.: Pelo que é nosso
.: Não tenha dúvidas
.: Enquanto isso...
.: Antecipação

00:11 - Pelo que é público

O Governo Costa faz discurso anti-austeridade, mas as suas medidas têm sido austeras.

No meio de tanta discussão redistributiva, o Orçamento do Estado para 2017 que será esta terça-feira aprovado definitivamente na Assembleia da República, não responde a nenhum dos problemas aflitivos da nossa economia:

i) O país não cresceu tanto como em 2015.

ii) O desemprego não caiu tanto como no ano transato.

iii) As reformas necessárias não só não aconteceram como algumas foram revertidas.

No próximo ano, acaba a fase do café com leite.

01:22 - Pelo que é nosso

Esquecem-se, naturalmente, que a história tende a repetir-se:

Relembro que a intervenção do FMI em 1977 foi procedida de nova ajuda em 1983, exatamente cinco anos depois.

Assim, em termos cronológicos, 2016 está para 2011 como 1983 para 1977.

Em 83: “com o desemprego acima dos 11 % e uma dívida externa galopante devido à subida das taxas de juro internacionais, o FMI emprestou 750 milhões de dólares e novamente impôs cortes nos salários da Função Pública, aumentos de preços, travão ao investimento público e cortes nos subsídios de Natal, entre outras medidas.”

E sejamos honestos: o quadro atual é propício a uma nova crise. Não digo isto apenas para o alarmar. Aliás, não sou o único a afirmá-lo!

É seguro dizer que Portugal perdeu, no mínimo, mais um ano da sua recuperação e hipotecou muitos mais do seu progresso.

O executivo optou pela sobrevivência em vez da construção. Escolheu a Geringonça, em vez do crescimento. Distinguiu o presente à custa de uma enorme fatura para as gerações futuras.

Cada português carrega consigo 26 mil dólares de dívida. E sem crescimento económico, é impossível pagá-la.

pelo-que-é-nosso

02:33 - Não tenha dúvidas

A crise será financeira, que não haja dúvidas acerca da sua origem.

Portugal não está no péssimo estado que se encontrava em 2010/2011. A economia cresce pouco, mas cresce. O desemprego apresenta uma tendência de correção.

Em sentido inverso, o stock de dívida continua a aumentar…

Desta vez, será a falta de confiança dos credores a despoletar um colapso no financiamento que depois emborcará na economia e na sociedade.

É apenas um principio basilar nas finanças que o mercado exija cada vez mais para emprestar a um estado que deve cada vez mais. É, também, normal que as taxas de juro que durante a maior parte do ano negociaram entre os 3% e os 3,5%, estejam, neste momento, acima dos 3,5% e com uma tendência de elevação.

Se nada for feito (e eu receio que já passamos o ponto de não retorno), os próximos dois anos avizinham-se catastróficos.

não-tenha-duvidas

Yields das OT portuguesas a 10 anos – Bloomberg

03:09 - Enquanto isso...

Lá fora, as ações europeias seguem praticamente inalteradas esta terça-feira. Na Itália, as sondagens dão uma vantagem cada vez maior ao “Não”.

Naturalmente, investidores procedem receosos que uma eventual crise política possa fazer ressurgir a crise da dívida soberana.

Nos outros mercados, a cotação do petróleo recua no meio de preocupações com o potencial acordo entre os membros da OPEP.

E mais cedo, ações asiáticas fecharam com sinais mistos e o Nikkei 225 terminou ligeiramente pior na base de dados japoneses mistos. A terceira maior economia do mundo viu a despesa cair inesperadamente em outubro, embora as vendas no retalho tenham caído muito menos do que o previsto e a taxa de desemprego tenha saído em linha com o consenso.

04:02 - Antecipação

Nos EUA, os primeiros grandes relatórios económicos do mês irão ser divulgados hoje.

A segunda estimativa do terceiro trimestre produto interno bruto (PIB) será lançado às 8:30 AM (13:30 em Portugal) com o consenso à espera de uma ligeira revisão em alta para o crescimento de 3,0%, a partir da leitura inicial de expansão de 2,9%.

Aqui também não se esperam grandes surpresas que possam mudar a, amplamente aguardada, elevação do juro básico americano no dia 14 de dezembro (próxima reunião da Fed).

O mais interessante será perceber o que Mario Draghi irá fazer no próximo dia 8 de dezembro, uma vez que o mercado aguarda com enorme antecipação o anúncio da extensão do programa de compra de ativos. Se não acontecer…

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.