À espera de um milagre

Logo, atira ela, a festa de juro baixo pode continuar. As linhas de divisão dentro da Fed estão claramente definidas.

Maior Menor
Por 16 de Março de 2016

.: Hora de ir para casa
.: Riscos inflacionários vs. turbulência nos mercados financeiros
.: Argumentos sensíveis
.: Nossa Senhora das taxas
.: The right way to do business

00:09 - Hora de ir para casa

Uma hora a farra tem de acabar.

Barulho, lixo, confusão… enfim… a probabilidade da festa descambar é muito alta.

É claro que existe sempre um desconforto.

Ninguém quer desligar a música e dizer aos seus convidados que está na hora de ir para casa.

No fundo, a opinião dos outros (investidores) é mais importante que a do dono da casa.

A presidente da Fed devia ignorar o ruído quando hoje se reunir com os seus conselheiros para tomar uma decisão sobre o aumento das taxas de juro…

Enquanto isso, as bolsas mundiais lateralizam à espera da decisão.

m5m16mar1

01:22 - Riscos inflacionários vs. turbulência nos mercados financeiros

A presidente da Fed tem dois conselheiros:

No ombro esquerdo, Stanley Fisher sussurra:

“estamos muito provavelmente a ver os primeiros sinas de sobreaquecimento da festa (leia-se inflação)”…

No ombro direito, Lael Brainard murmura:

“os riscos de terminarmos a festa agora são do lado negativo”

Yellen está dividida.

Pensa ela: estou disposta a adotar uma postura que aceita o risco de que a folia (inflação) ultrapasse a meta do banco central dos EUA (2%)?

02:12 - Argumentos sensíveis

No momento, Brainard tem a conversa mais cativante:

A diabinha, baseia o seu argumento nas perspetivas de inflação (últimos indicadores apontam para um decréscimo no índice de preços).

Logo, atira ela, a festa de juro baixo pode continuar.

As linhas de divisão dentro da Fed estão claramente definidas.

Um lado teme as consequências inflacionárias de um mercado de trabalho que rapidamente se aproxima do pleno emprego.

Desse lado da ilha, mais pessoas a trabalhar é igual a mais consumo, logo a inflação vai aparecer e quando o fizer será de repente.

O que forçaria uma mudança abrupta da política monetária (aumento acelerado das taxas).

E esta sim, poderia inadvertidamente empurrar a economia para uma recessão…

Do outro lado, defende-se que dado a desaceleração da procura externa (economia global), é fundamental proteger com cuidado e preservar o progresso através de ajustamentos prudentes (não aumentar as taxas, enquanto não se sentir melhorias).

Com tudo isto, acho que ainda não é hoje que a dra. Yellen diminui as luzes, mas pelo discurso, os investidores vão tentar adivinhar o que aí vem…

03:04 - Nossa Senhora das taxas

Em Frankfurt, Draghi reza pelo hike (subida) das taxas.

O nosso super-herói bem imprime moeda, mas o euro teima em não desvalorizar.O italiano, já percebeu que o racional não é tanto a desvalorização do euro, mas a valorização do dólar…

Mesma coisa, mas com significado diferente…

Quer dizer com isto que é são os EUA que vão decidir o caminho do EUR/USD.

Se houver a contração monetária lá, o euro vai desvalorizar aqui…

O milagre aqui… figurativo claro: é os dois presidentes conseguirem ao mesmo tempo manter a trajetória de crescimento nos EUA e a saída do marasmo da zona Euro.

m5m16mar2

04:00 - The right way to do business

Pedro Soares dos Santos, presidente da Jerónimo Martins, numa entrevista ontem afirmou: o “peso do sector público em Portugal está a matar lentamente o sector privado”.

Ora, a retórica do Governo é que o aumento de benefícios não causa necessariamente o aumento de impostos…

Nós sabemos que isso é mentira.

Na prática, incorrer em deficits é aumentar o tamanho do estado (via taxação, mesmo que seja no futuro).

Na minha singela opinião, numa economia aberta o desafio deve ser a captação de investimento.

São as empresas que realmente geram benefícios (o vulgo, salário)…

Num exemplo prático, as palavras do CFO da Galp são um ótimo exemplo: “Ninguém compra as nossas ações se tiverem um dividendo inferior ao do vizinho”.

As empresas fazem-se bonitas para o investidor.

O nosso executivo já devia ter percebido o mesmo, mas de outra forma: “Ninguém investe num país onde as taxas (ou o custo de fazer negócio) são maiores que as do vizinho”.

 

Leia o Nosso Relatório de Imóveis clicando, AQUI

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.