À Procura de Ganhos com a inflação

A pergunta que se impõe é: será que a inflação está de volta – e não apenas na Zona Euro, mas em todo o lado? Se assim for, como é que pode lucrar com isso?

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Por 20 de Outubro de 2016

.: O efeito invisível
.: Deflação
.: Indicadores relativos
.: Aversão ao risco
.: Vamos aguardar

00:03 - O efeito invisível

A inflação na Zona Euro está de volta: a bica está um pouco mais cara, a eletricidade elevou uns cêntimos, a carcaça custa um pouquinho mais…

O aumento é praticamente invisível, mas a inflação está lá.

Os preços ao consumidor na zona Euro aumentaram 0,4 por cento, na sequência de um ganho de 0,2 por cento em cada um dos dois meses anteriores (variação homóloga).

o-efeito-invisível

É a taxa de inflação mais alta desde outubro de 2014, impulsionada pelo setor da restauração, arrendamento e tabaco.

Não é bem uma surpresa. Os preços do petróleo dispararam. O euro desvalorizou. E a quantidade enorme de dinheiro criada a partir do nada tem de ir parar a algum lado…

Em Portugal, o Governo estima uma taxa de inflação de 1,5% em 2017. Os analistas são bem mais conservadores e preveem uma variação de 0,8% a 1%.

Posto isto, a pergunta que se impõe é esta: será que a inflação está de volta – e não apenas na Zona Euro, mas em todo o lado?

E se assim for, como é que pode lucrar com isso?

01:22 - Deflação

A Europa anseia por inflação há largos anos…

Vivemos num mundo com excesso de capacidade e altamente endividado. Combinação por si só deflacionária.

Assim, o mercado financeiro sobrecarregou “o trade da deflação”. Basta olhar para um gráfico da classe de ativos que mais beneficia com a queda dos preços ao consumidor – renda fixa (obrigações).

A única razão pela qual as pessoas hesitam chamar os nomes pelos bois no caso do mercado de renda fixa… ou seja, usar a palavra “bolha”…

É porque as obrigações governamentais são vistas como de baixo risco, seguras… um pouco como o imobiliário era entendido antes da crise de 2008…

02:33 - Indicadores relativos

O nível de sobrevalorização destes ativos realmente descolou desde 2008 (claro, quando o Federal Reserve começou a imprimir dinheiro para comprar títulos do Tesouro norte-americano).

Atingimos o topo? Bem, indicadores relativos parecem indicar que sim.

De acordo com a Merril Lynch, os ativos “reais” (imóveis, terrenos, colecionáveis e commodities) estão em mínimos de todos os tempos em relação aos ativos financeiros (ações e obrigações).

Claro, esta “sobreavaliação relativa” pode ser corrigida de várias maneiras…

Os preços das commodities poderão subir, sim. Mas o valor de ações e renda fixa poderão cair. Ou tudo poderá vir por aí a baixo – mas os ativos “reais” cairiam menos do que os ativos financeiros.

Acreditar na convergência é sempre arriscado… Mas no meu cenário base,calculo que haverá uma queda nos ativos financeiros e um aumento do preço dos ativos tangíveis.

03:04 - Aversão ao risco

Para os mais adversos ao risco… existe sempre uma opção…

O dinheiro é o único ativo financeiro positivamente correlacionado com a inflação. Na verdade, também existem as obrigações indexadas à inflação… mas não entremos por aí.

À primeira vista, isso pode parecer um contrassenso. Afinal de contas, o dinheiro debaixo do colchão gera uma taxa de juro de 0%.

Logo, não se “correlaciona positivamente” com a inflação. Só vai perder valor!

Mas, é claro, se o mantiver numa conta de depósito de juros de taxa variável de curto prazo. Esses juros vão acompanhar a subida da inflação…

Entretanto, pode estar a deixar algum dinheiro na mesa. Mas lembre-se, se nada mais, é sempre útil ter a “opcionalidade” – isto é, a capacidade de comprar o que quiser, quando quiser, se a oportunidade surgir.

04:01 - Vamos aguardar

O Ás deste baralho de cartas continuam a ser Mario Draghi e Companhia (Janet Yellen, Kuroda e Carney).

A evolução das taxas de juro está subordinada à vontade dos chefes dos vários bancos centrais.

Se no caso dos outros bancos centrais o seu mandato é suficientemente dúbio para permitir alguma margem de manobra… no caso do BCE o tratado estabelece uma hierarquia clara de objetivos para o Eurosistema: a estabilidade de preços é o mais importante.

O que em bom português significa que a evolução da inflação é que vai ditar o rumo dos acontecimentos.

Assim, a reunião de hoje assume especial importância.

Apesar do consenso não prever novas medidas.

O mercado estará atento às palavras de Draghi para recolher pistas sobre se o BCE reforçará os estímulos ou se está já a pensar na estratégia de retirada (subida de juros).

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.