A vida Costa

Se do Banco Central podem chegar boas novas para o Estado português…do Financial Times chegou-nos mais um aviso à navegação.

Maior Menor
Por 8 de Setembro de 2016

.: Dá para voltar atrás?
.: Anseios de um mercado emburrecido
.: É só mudar as regras
.: Tempestade Perfeita
.: Espelho meu, espelho meu

00:12 - Dá para voltar atrás?

Não sei quanto a vocês, mas eu lembro-me perfeitamente de ter ouvido, após a crise financeira, que os programas de estímulos não-convencionais (taxas de juro negativas, programas de compras de ativos, emissão de moeda, etc) eram temporários.

Seriam utilizados cirurgicamente para estimular a economia e, posteriormente, regressaríamos à normalidade.

De acordo com o timeline anunciado na altura, hoje deveríamos estar a discutir exit strategies.

Como estavam enganados.

00:52 - Anseios de um mercado emburrecido

Aparentemente, o mundo dos estímulos é o “novo normal”, viciado em taxas de juro perto ou abaixo de zero. O planeta arrasta-se num crescimento pálido, onde a única coisa que sobe é o preço de ativos de longo prazo.

Para não variar, o mercado anseia por mais uma dose, cortesia do Banco Central Europeu.

Com efeito, existe um consenso no mercado sobre a “necessidade” de o BCE ter de utilizar ainda mais poder de fogo. Não porque está, propriamente, a resultar…, mas porque ninguém sabe o que vai acontecer quando o programa caducar.

É que este está previsto terminar em março de 2017.

A única dúvida parece ser se o anúncio ocorrerá já hoje ou apenas na reunião de dezembro.

01:55 - É só mudar as regras

Uma vez que o programa tem data para terminar, uma das medidas previstas seria estender o programa de compras para além de março de 2017. Lógico.

Depois existe o problema dos limites! Draghi está a ficar sem margem de manobra devido à escassez de títulos no mercado que consegue comprar.

No caso da dívida portuguesa, e também da irlandesa, o limite visto como um constrangimento às compras é o de o BCE não deter mais de 33% de cada emissão. Na dívida alemã, o banco central não pode comprar títulos com juros abaixo da taxa de depósito (-0,40%).

Solução: alargar o limite para 50% (boas notícias para a Geringonça) e eliminar o patamar de -0,40% (quando o negativo já não é suficiente para a Alemanha).

Quando não se consegue marcar golos com os pés e com a cabeça, o árbitro diz que passa a valer jogar com as mãos.

03:20 - Tempestade Perfeita

Se do Banco Central podem chegar boas novas para o Estado português…

Do Financial Times chegou-nos mais um aviso à navegação. Por esta altura, são tantos que já lhes perdi a conta (Comissão, UTAO, Moody’s, DBRS, Wall Street Journal, Nomura, etc…).

Relembra o artigo que Portugal “escapou ao desastre de ser atirado fora da Zona Euro” em 2011, mas que de lá para cá, as reformas estruturais que deveriam devolver a competitividade à economia foram postas na gaveta…

O resto, o leitor já leu várias vezes aqui no M5M:

“Portugal está no centro de uma tempestade perfeita de fraco crescimento económico, queda do investimento, baixa competitividade, défices orçamentais persistentes e um setor bancário subcapitalizado que detém muita da estratosférica dívida pública da nação“.

04:09 - Espelho meu, espelho meu

O artigo vai mais longe e aclara o problema: “o governo socialista minoritário está mais inclinado para medidas anti-austeridade que possam agradar a população do que para reformas destinadas a melhorar a eficiência do sector público e encorajar o investimento” …

Também aqui, nada de novo… ser populista faz parte da estratégia de quem quer ganhar eleições.

O problema é que o país is running out of time: com um stock de dívida a aumentar e o crescimento do PIB em trajetória contrária temos os ingredientes perfeitos para uma crise na dívida pública…

No mercado secundário de obrigações, apesar do esforço do BCE, a yield da dívida soberana portuguesa a 10 anos continua perto dos 3%, um valor muito mais alto do que a dívida espanhola (abaixo de 1%) ou da irlandesa (0,4%)… contexto revelador da fragilidade e do risco que os investidores contemplam na nossa economia.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.