Acorda para a vida

Quem vê a nossa economia através de um telescópio continua a duvidar da recuperação económica e do cumprimento das metas orçamentais.

Maior Menor
Por 19 de Agosto de 2016

.: Pedir a quem não tem
.: Miradouro
.: Precisa de número de contribuinte?
.: Sobe e desce
.: Bull & Bear

00:09 - Pedir a quem não tem

Todos os dias, a meio da manhã, bebo sempre um café para despertar o tico e o teco. O raciocínio regressa com energias redobradas, mas o efeito mais relevante da cafeína é despertar a minha atenção para notícias que foram descuradas numa primeira filtragem.

Estava eu a ler os diários matutinos quando percebi que a meio da apresentação de resultados da Sonae, o presidente executivo da maior retalhista portuguesa foi convidado a dar a sua leitura sobre o comportamento do consumidor em território nacional. Decidi ler com mais atenção, afinal o Continente tem o dedo na veia do paciente:

“Visto do nosso ângulo, e com as informações que nós temos, a Sonae vê com bastante moderação e prudência quer a realidade do consumo, quer as expectativas de evolução para o consumo. Não há, até ao momento, nenhum indicador que nos permita – analisando o passado – estar muito otimistas quanto à evolução do consumo privado em Portugal”

Pergunto agora eu: não era o Governo português que apostava no consumo interno como força dinamizadora da economia portuguesa em 2016 e adiante?

01:22 - Miradouro

Como se não bastasse a opinião de quem está por dentro, de fora, a vista não é melhor. Quem vê a nossa economia através de um telescópio continua a duvidar da recuperação económica e do cumprimento das metas orçamentais.

Os dados económicos nacionais continuam consistentemente abaixo da média “anémica” europeia…

Por isso quando hoje a Fitch anunciar uma nova revisão do rating português não se esperam grande novidades… recordo que este ano, a agência de rating cortou a perspetiva da dívida nacional… e francamente? Já somos lixo, que é basicamente o pior que nos podia acontecer.

Com efeito, os riscos são assimétricos, isto é, as surpresas só podem surgir do lado negativo. Do lado positivo, só mesmo um milagre poderá trazer alguma boa nova.

E, com a conquista do Europeu de futebol, desconfio que o Éder já gastou o seu crédito milagreiro junto de Santo António.

02:07 - Precisa de número de contribuinte?

Na esfera política esta inconsistência entre o que é anunciado e aquilo que os agentes económicos sentem na rua é escamoteado através de comunicados anti-europa e anti tudo-o-que-seja-pró-mercado.

De um lado o governo garante que está a cumprir o orçamento (retórica), por outro os dados económicos continuam a manifestar fraqueza (estatística).

Como em tudo na vida, os fundamentais eventualmente acabam sempre por ter razão, nessa altura o contribuinte é que paga a fatura.

03:01 - Sobe e desce

Num período em que os juros da dívida portuguesa voltaram a ser alvo da turbulência dos mercados, a estratégia do Tesouro está a focar-se especialmente no perfil da dívida (maturidades).

As desconfianças dos investidores quanto à política de António Costa, os conflitos com Bruxelas e as dúvidas quanto ao “rating” da DBRS levaram as “yields” de Portugal a um constante sobe e desce…

O IGCP, além do leilão de troca de obrigações e do leilão de recompra, tem também comprado títulos fora do mercado. Um conjunto de operações que visa aliviar o esforço de financiamento dos próximos anos. Mas o calendário até ao final de 2016 é ainda muito exigente e continua permeável a choques externos…

Ao todo ainda faltam quatro leilões de obrigações entre 1,0 mil milhões e 1,25 mil milhões de euros até ao final do ano (num total de 5,5 mil milhões de euros).

Mesmo assim, com a ajuda do BCE este ano não deve haver grandes problemas. O susto vai acontecer quando Mario Draghi ficar de mãos atadas…

04:08 - Bull & Bear

Nas terras de Tio Sam, os índices encerraram em alta generalizada, diante de sinais de melhoria do estado clínico da maior economia do mundo.

No início da semana, os índices recuaram ligeiramente, amuados com os comentários de certos governadores regionais da FED, que sinalizavam um novo aumento dos juros do país para muito breve.

Depois de ontem saírem as minutas da reunião da FED, fica-se com a sensação que uma eventual subida, a acontecer, será para Dezembro. Tempo suficiente para alguém no circulo mais próximo da Dra. Yellen a convencer que o melhor mesmo é ficar quieta. Ainda mais, quando os indicadores de inflação voltam a exibir fraqueza.

A desculpa perfeita para continuar a empurrar o problema com a barriga…

Num registo diferente, o indicador US Economic Surprise, que compara as expetativas dos analistas com os dados económicos, atingiu no mês transato o nível mais alto dos últimos dois anos.

Mercados em máximos, com os analistas excessivamente otimistas… onde é que eu já vi este filme antes e não acabou bem?

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.