As Voltas da Vida

Depois da ressaca islandesa, o contribuinte português prepara-se para enfiar mais um shot de água ardente pela goela abaixo. Depois dos privados, agora é a vez de salvar a CGD.

Maior Menor
Por 15 de Junho de 2016

.: Os fugitivos de Alcatraz
.: Impacto Súbito
.: Barreira de Fogo
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.: Million Dollar Baby

00:10 - Os fugitivos de Alcatraz

Reino Unido como um todo dirige-se para a porta de saída.

Quer ver-se livre da aventura federalista europeia em que se enfiou nos últimos anos.

Em apenas 24 horas surgiram 5 sondagens que atribuem a vitória aos isolacionistas.

Mas será assim tão fácil?

Uma decisão desta magnitude é demasiado importante para se acreditar na fé das sondagens.

É sempre muito mais fácil falar em sair do que votar em acordo.

01:22 - Impacto Súbito

Apesar de compreender as razões que levam os britânicos a quererem saltar fora do barco, duvido que o establishment (interesses instalados) não meta as garras de fora.

Veja-se o último exemplo de como a propaganda continua:

Governo anuncia que a saída da UE obrigaria a um aumento de impostos.

Segundo os quais, seriam exigidos mais 38 mil milhões de euros aos contribuintes britânicos. De acordo com a mesma fonte, os efeitos seriam piores do que os da crise de 2008…

Ainda vai fazer correr alguma tinta…

02:04 - Barreira de Fogo

Enquanto aguardamos pelo plebiscito, tentamos interpretar, dentro das nossas capacidades, qual será o impacto para quem fica.

A crescente preocupação com o desmembramento do bloco europeu empurrou a taxa de juro das obrigações alemãs a 10 anos para baixo de zero.

Sim! Percebeu bem. Se comprar obrigações alemãs a 10 anos, por altura do EURO 2026, receberá menos do que lá meteu.

Então porque é que alguém faria isso?

Há várias razões… Uma delas é pura especulação.

Se o juro ficar ainda mais negativo, o preço da obrigação subiria e, então, o leitor teria um ganho de capital no seu investimento. O tema do juro seria secundário…

03:33 - Poder Absoluto

Existe também a proteção do redenomination risk.

Num cenário de deposição da moeda única, todas as dívidas soberanas voltariam a transacionar na moeda do país emissor…

Nesse caso, que dívida é que preferia ter em carteira… títulos de dívida denominados em escudos ou em marcos?

Pois é, quem ficasse com marcos alemães na mão estaria muito melhor.

Apesar de ser um cenário muito remoto, essa lógica não só ajuda a capitalizar o movimento de especulação, mas é também um fator importante a considerar nas suas decisões de investimento.

04:05 - Million Dollar Baby

Depois da ressaca islandesa, o contribuinte português prepara-se para enfiar mais um shot de água ardente pela goela abaixo.

Depois dos privados, agora é a vez de salvar a CGD.

São mais 4 mil milhões para salvar o banco de todos (mais uns do que outros) nós.

Entre as medidas negociadas, o banco terá de despedir 1000 pessoas, reduzir balcões e alienar ativos.

Medidas que os privados aplicaram desde a crise de 2010.

Entretanto, a Caixa ficou parada no tempo a acumular prejuízos.

Em termos de governance, o BCE queria um máximo de 15 administradores e um Chairman diferente do CEO.

O Estado achou que eram precisos mais administradores (19) e deu os dois cargos mais importantes do banco estatal à mesma pessoa. Toma lá Europa!

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.