Bem-vindo ao mundo sem risco

São os contribuintes que pagam a fatura quando os agentes económicos incorrem em demasiado risco. Primeiro, salvaram os bancos que atribuíram crédito a quem não deviam. Agora, participam nas perdas de “pequenos” investidores. Bem-vindo ao mundo sem risco.

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Por 14 de Dezembro de 2016

.: Aversão a risco
.: Socializar a perda
.: Árvore das patacas
.: Realidade europeia
.: Dia de mercados

00:08 - Aversão a risco

Há algo bastante particular sobre a teoria financeira: todas as decisões de investimento são medidas numa ótica de risco vs. retorno.

Quanto maior o risco, maior o retorno.

Traduzindo, para um investidor incorrer em mais risco deve ser remunerado por esse acréscimo no potencial de perda.

Esse racional é basilar na avaliação de investimentos e no funcionamento dos mercados financeiros.

Qualquer deturpação desta equação resulta SEMPRE num desfecho desagradável (veja-se a crise financeira de 2008).

01:07 - Socializar a perda

É curioso pois que a solução encontrada pelo Governo para os indignados do BES seja indemnizar quem aplicou dinheiro em produtos que ofereciam um retorno acima do mercado…

Daí surge uma inevitabilidade: são novamente os contribuintes que pagam a fatura quando os agentes económicos incorrem em demasiado risco.

Primeiro, salvaram os bancos que atribuíram crédito a quem não deviam (Banif, Novo Banco e CGD).

Agora, participam nas perdas de “pequenos” investidores.

Bem-vindo ao mundo sem risco.

Quando ganha é para si, quando perde o Estado resolve (pagam todos).

02:09 - Árvore das patacas

Pareço injusto? Talvez, mas sempre me ensinaram que o dinheiro não cai das árvores.

Se caísse, também não valeria de muito, não é mesmo?

A perda é a única forma de ensinar.

Se um investidor nunca perde, o risco deixa de fazer parte da equação e a única variável que importa é o retorno.

Assim, os agentes económicos são incentivados a incorrer em cada vez mais risco de forma a obter retornos cada vez mais altos.

Esse menosprezo pelo perigo é a semente de todas as bolhas.

03:10 - Realidade europeia

Obviamente, o problema não seria tão grave se a ilusão estivesse circunscrita à realidade portuguesa.

Lá fora, o jogo também está viciado.

Ao nível soberano, o Banco Central Europeu financia os estados endividados que com taxas de juro tão atrativas continuam no seu frenesim despesista.

Ontem sinalizou que pode socorrer o aflito Monte di Paschi caso este não consiga sobreviver com uma solução de mercado.

Portanto, que lição ensinam aos bancos?

Se correr mal, nós (os contribuintes) estamos aqui para os salvar.

Ora como o bónus dos gestores depende do retorno… acho que nem preciso de explicar o que acontece.

03:58 - Dia de mercados

Nos mercados é dia de Fed.

Bolsas europeias negoceiam no vermelho na expetativa da decisão da Fed: com a elevação do juro básico considerada uma mera formalidade, as atenções voltam-se para 2017, com apostas de uma elevação adicional em meados de junho.

Curioso como a bolsa norte-americana está em máximos, o custo de capital vai subir e Trump ainda pretende aumentar o stock de dívida (e por conseguinte, o custo de serviço desse passivo).

Para mim, parece uma mistura explosiva.

Todavia sem ser os perma-bears, o mercado nunca esteve tão otimista.

Siga o jogo.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.