Chop Suey de dados

Alguém grita no altifalante: arrefecimento chinês está controlado. Será mesmo? Claro que não.

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Por 13 de Abril de 2016

.: Ipsis verbis
.: Estatística criativa
.: Não há coincidências
.: Métrica de desespero
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00:11 - Ipsis verbis

Depois da febre italiana, agora chega-nos uma nova estirpe asiática.

Exportações chineses registam maior subida do ano e mercados respiram de alívio.

DAX +2% tenta aproximação aos 10.000 pts… o teto de 2016.

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Cotação DAX – Fonte: Bloomberg

Alguém grita no altifalante: arrefecimento chinês está controlado.

Será mesmo?

Claro que não.

Mas com tanta vontade para comprar, qualquer notícia é boa notícia.

01:14 - Estatística criativa

O problema com os dados chineses é um problema de economia (semi-)planificada…

Eu procuro nos dados, aquilo que quero ver.

Nem que para isso tenha de alterar os números.

Esta questão já fez levantar suspeições anteriormente… e agora cada vez mais.

De acordo com um estudo feito pela Bloomberg, apesar do abrandamento do ritmo de expansão, a estranha consistência da desaceleração tem um cheiro esquisito.

Pegue nos últimos seis trimestres de crescimento do PIB: 7,1 por cento, 7,2 por cento, 7,0 por cento, 7,0 por cento, 6,9 por cento e 6,8 por cento.

Sempre a abrandar, mas mais certinho que um relógio chinês…

Estranho?

Em média, a taxa de crescimento do PIB mudou 0,2 pontos percentuais a cada trimestre desde 2011, isto é menos da metade da média para o resto das 10 melhores economias do mundo.

03:12 - Não há coincidências

Durante o mesmo período de tempo, a economia da China já teve de lidar com preços por barril de petróleo tão distintos como de US $ 35 a US $ 114…

As exportações do país passaram de expansão para contração…

E a volatilidade no mercado de ações interno atingiu máximos históricos.

Conclusão, a folha de excel revela dados demasiado suaves para fundamentais tão voláteis…

Por essa razão, o bilionário e “rei das obrigações”, Bill Gross diz que se o mercado ainda acredita que economia da China está a crescer 6 por cento ao ano…

É porque estamos na presença de um dos maiores “delírios dos investidores e que um dia vai ser exposto para toda a gente ver.”

02:32 - Métrica de desespero

Foi o chinês Confúcio que disse:

“Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade.”

O mesmo poderá ser dito sobre os nossos governantes, sobre o crédito, sobre as ações…

Até sobre os presidentes dos bancos centrais…

O desespero é tanto que Mario Draghi terá descrito a ideia de “dinheiro distribuído de helicóptero” – envio de dinheiro diretamente aos cidadãos – como “muito interessante”.

Não augura muito na qualidade, vindo do homem mais poderoso da zona Euro.

03:33 - Virar de página

O FMI cortou as previsões de crescimento económico de Portugal e continua a ser mais pessimista do que o Governo, antecipando que o PIB aumente 1,4% em 2016.

Recordo que S. Bento “acredita” que a economia portuguesa cresça 1,8% este ano…

Já para 2017, a instituição de Christine Lagarde espera que o ritmo de crescimento da economia portuguesa abrande para os 1,3% e que seja ligeiramente inferior em 2021, de 1,2%!

Péssimas notícias, se olharmos para os números do desemprego…

Apesar da estabilização do desemprego no conjunto dos países da OCDE, Portugal não acompanhou esse movimento.

Por cá, a taxa avançou de 12,1% em Janeiro para 12,3% em Fevereiro, longe da média de 6,5% registada na OCDE nestes dois meses…

Com PIB a crescer a este ritmo, inversão nestes indicadores só pedindo ajuda aos técnicos de estatística chineses…

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Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.