Com os olhos em bico

A China continua preocupada com os recentes movimentos populares antiglobalização. E não é para menos!

Maior Menor
Por 6 de Setembro de 2016

.: Tempo de esperança
.: Vai ser agora? Acho que não
.: Efeito de estufa
.: O que realmente importa
.: Por trás das cenas

00:12 - Tempo de esperança

As bolsas europeias sobem timidamente esta terça-feira, na expetativa de mais estímulos monetários por parte do BCE. Daqueles que estão a destruir o setor financeiro e a promover a maior bolha que o mundo já viu, nas obrigações soberanas. Justamente o que precisamos!

Nos EUA, depois de muito se falar da possibilidade de uma subida das taxas de juro em setembro, as apostas de elevação caíram drasticamente. Abre-se o caminho a juros menores por mais tempo nos EUA, aguçando o apetite pelos ativos de risco.

Pelo menos até dezembro…

01:22 - Vai ser agora? Acho que não

O mercado de commodities não se cansa de um bom rumor.
Sobretudo um que congregue a Santa Trindade do setor: petróleo, Arábia Saudita e congelamento da produção.

Desta vez, os dois maiores produtores mundiais de petróleo (Arábia Saudita e Rússia) acenaram que iam criar uma task force para monitorar a cotação do barril de crude e apresentar recomendações para promover a estabilidade de preços.

Imagino o Sr. Mohammed e o Sr. Yuri a olhar para um terminal da Bloomberg…

Mesmo assim, estas declarações surtiram efeito. O preço do barril disparou e a produção prossegue em máximos históricos. Sinceramente? As probabilidades de qualquer ação para reduzir o excesso de oferta mundial parecem mínimas…

Uma tentativa de congelar a produção está em cima da mesa desde o início deste ano e nenhum dos envolvidos parece ter o mínimo interesse em fechar a torneira.

Vários membros da OPEP atravessam graves recessões económicas… a última coisa de que precisam é de cortar o pinga-pinga. Mas enquanto o mercado se assustar com estes “supostos acordos”, eles prometem continuar…

02:44 - Efeito de estufa

Na China, analistas apregoam o sucesso da cimeira do G20, com o confronto, em grande parte, evitado e com amplo consenso sobre o estado frágil da economia global e da necessidade de uma vasta gama de políticas para corrigi-lo.

Houve até um anúncio conjunto da China e dos Estados Unidos! Espante-se: os dois maiores emissores mundiais de gases de efeito de estufa vão ratificar o Acordo de Paris sobre alterações climáticas.

Se ignorarmos a ponta do iceberg e espreitarmos abaixo da superfície, a reunião dos líderes mais poderosos do planeta foi um redundante fracasso: insucesso dos Estados Unidos e da Rússia em chegarem a um acordo sobre a Síria, o aumento da oposição popular ao livre comércio e à globalização e a escassez de ideias para resolver a ausência de crescimento mundial (além da fórmula de sempre: mais do “belo” intervencionismo).

03:19 - O que realmente importa

A China continua preocupada com os recentes movimentos populares antiglobalização. E não é para menos! A maior economia do mundo depende enormemente do setor das exportações e qualquer medida protecionista do ocidente tem um impacto tremendo no PIB do gigante asiático.

Na antevéspera do G20, os responsáveis chineses têm sido particularmente ríspidos com a intromissão dos Estados ocidentais na sua agenda de investimento no exterior.

Em Portugal, não existe nenhum impedimento. Veja-se as aquisições da Fosun, Haitong, Three Gorgeous…

Mas há poucas semanas, a Austrália bloqueou a venda da maior rede de energia do país, enquanto o Reino Unido decidiu adiar um projeto nuclear de $24 biliões em que os chineses investiram.

O ocidente começa a ficar saturado das promessas orientais…

04:04 - Por trás das cenas

Em casa de ferreiro, espeto de pau. Nos bastidores, os países ocidentais continuam a acusar a China de não cumprir a seus próprios objetivos.

Os chineses pedem em público uma maior abertura e mais medidas para combater o protecionismo, quando, do seu lado, oferecem aos investidores ocidentais um acesso muito limitado ao seu mercado. É cada vez mais difícil fazer negócios na China, com novas leis e políticas que dificultam a vida a quem quer investir no Reino do Meio.

Recordo que há vários anos que a China tenta fazer uma transição de fábrica do mundo para uma economia baseada no consumo interno. Alteração que poderia significar um verdadeiro novo capítulo no crescimento sustentável da economia global.

Mas se a mão invisível empurra para o lado do consumo, o partido comunista continua a empurrar para o outro…

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.