Combinação Explosiva

Continuam todos a operar dentro de uma desequilibrada combinação de políticas monetárias num mundo com crescimento económico vacilante.

Maior Menor
Por 19 de Setembro de 2016

.: Reunião do Fed
.: Porque é importante
.: Fique atento
.: Não ignore as estimativas
.: Assim fica difícil

00:09 - Reunião do Fed

Esta semana, a atenção do mercado estará focada no Comité de Operações no Mercado Aberto da Reserva Federal, o banco central mais poderoso do mundo.

Qualquer mexida na taxa de juro terá um impacto global.

Admito frio na barriga – o mercado não precifica qualquer elevação (a minha aposta continua em dezembro). Mas, por isso mesmo, qualquer surpresa provocaria um choque ainda maior.

No entanto, para mim, a reunião mais informativa terá lugar em Tóquio. O desfecho, não só nos vai dizer mais sobre os grandes desafios do Japão, mas também poderá sinalizar o trajeto para os outros bancos centrais…

Continuam todos a operar dentro de uma desequilibrada combinação de políticas monetárias num mundo com crescimento económico vacilante.

01:22 - Porque é importante

É agora amplamente reconhecido que a solução encontrada para resolver a crise financeira global pode ter colocado uma carga excessivamente pesada sobre os ombros dos bancos centrais.

As instituições monetárias sempre tiveram uma atuação discreta, embora crítica, na política mundial. Aumentando o compasso em cenários de crise e arrefecendo a cadência quando a pista começava a aquecer, pautavam assim nos bastidores, o ritmo da economia.

De repente abandonaram a bateria e tornaram-se o frontman da banda (ao estilo de David Grohl).

No processo, as instituições monetárias tornaram-se cada vez mais comprometidas com medidas experimentais, de taxas de juros negativas na Europa e no Japão, a envolvimento nos mercados financeiros através de compras de ativos em larga escala.

Embora os bancos centrais continuem dispostos a intervir, as dúvidas sobre a eficácia destas políticas continuam a aumentar…

E como em nenhum lugar esta questão é mais premente do que na terra dos samurais, os próximos passos do Banco do Japão indicarão ao mercado o futuro da política monetária mundial.

02:33 - Fique atento

Fez as manchetes do início do ano – hard-landing chinês – mas, entretanto, foi esquecido num artigo de opinião de um matutino qualquer… Em janeiro, a maior parte dos índices globais esteve em bear market (desvalorização superior a 20% relativamente ao último máximo), envolvidos numa mescla de contração monetária norte-americana, aprimorada com o arrefecimento da economia chinesa…

De lá para cá, a contração monetária passou para segundo plano e a novela chinesa saiu do prime-time, com dados económicos relativamente positivos.

Sabe-se agora que esta melhoria nos indicadores pode ter acontecido à custa de um mal maior… é que o principal indicador da dívida da China atingiu um nível recorde no primeiro trimestre de 2016…

Entre janeiro e março, o desvio do rácio entre o crédito e o PIB atingiu os 30,1%, o nível mais alto de sempre e bem acima dos 10%…

O BIS (Bank of International Settlements) já veio alertar que o rápido aumento da dívida e do crédito vencido poderá causar uma crise financeira na segunda economia mundial, nos próximos três anos.

É uma bomba-relógio prestes a explodir…

03:01 - Não ignore as estimativas

Internamente, o cenário económico segue complicado: novas estimativas apontam para um crescimento do PIB de apenas 1% (na anterior sondagem a média das estimativas apontava para um crescimento de 1,2% da economia portuguesa este ano).

As estimativas para o próximo ano também foram revistas em baixa, com os 22 economistas que participaram no inquérito da Bloomberg a apontarem agora para um crescimento de 1,2% em 2017, abaixo dos 1,5% anteriores.

Têm sido várias as organizações a rever em baixa as suas previsões para a economia portuguesa nos últimos dias.

04:09 - Assim fica difícil

O principal responsável pela queda do Produto Interno Bruto tem sido a rubrica do investimento.

Depois das várias decisões (algumas em cima da mesa) que assustam o tão desejado capital estrangeiro…

Também naquilo que controla, o Estado tem cortado por onde pode… Nos primeiros três meses do ano, apenas 7% de todo o investimento feito em Portugal veio do Estado.

Isto significa que o início de 2016 trouxe o mais baixo contributo do investimento público para a totalidade do investimento feito em Portugal desde 1995.

Do ponto de vista dos interesses do executivo, o corte no investimento faz sentido: o país tem de cumprir objetivos orçamentais exigentes, mas como não quer cortar nos benefícios (quer inclusive aumentá-los), corta no que é mais fácil.

Porém, para um país que precisa de investimento, isso é um erro fatal. Até, porque em Portugal, o investimento público tem um efeito de arrastamento muito superior ao investimento privado…

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.