Continua tudo na mesma

Quando dás por ti a ver o Inside Job mais uma vez, surge automaticamente a perceção que algo está errado. O documentário estreou dois anos após o início da crise financeira de 2008 e meia dúzia de anos depois… continua tudo na mesma.

Maior Menor
Por 11 de Abril de 2017

.: Inside Job
.: Cegueira permanente
.: Parece que sim
.: Pensar crítico
.: Fora da cama

00:08 - Inside Job

Quando dás por ti a ver o Inside Job mais uma vez, surge automaticamente a perceção que algo está errado. Quando foi mesmo que nós perdemos a sanidade?

Não devíamos ter aprendido com os erros?

O documentário estreou dois anos após o início da crise financeira de 2008 e meia dúzia de anos depois… continua tudo na mesma.

Confesso que o que mais me impressiona ao longo das duas horas que dura a narrativa é a falta de noção dos responsáveis.

Parece que quanto mais alto o cargo (privado, académico ou público), maior é o grau de corrupção, alheamento, irresponsabilidade e soberba.

01:22 - Cegueira permanente

Desde Greenspan, Bernanke, Dudley, Feldstein, Summers, Paulson, Hubbard, Fuld, Mozilo, Obama, seguradoras, bancos, agências de rating, reguladores e bancos centrais, estavam todos envolvidos no esquema…

Uns porque fecharam os olhos, outros diretamente envolvidos na podridão, alguns simplesmente porque não faziam ideia do que se passava…

Com efeito, os maiores “génios” da economia ou finanças foram os grandes responsáveis pela crise…

Seria de esperar que fossem encostados, substituídos, presos, suspensos. Qualquer coisa.

Nada disso.

São exatamente os mesmos que ocupam atualmente os cargos mais importantes do mundo e influenciam as principais decisões políticas a nível global.

Em Portugal, idem idem aspas aspas…

02:33 - Parece que sim

Volta e meia recebo emails de desagrado dos nossos leitores que normalmente andam à volta do mesmo tema: “Pedro, porque és tão duro com o Governo? (ou com os bancos?)”

Eu fico pasmado.

Depois de tudo o que fizeram e fazem. Como é que alguém ainda sai em sua defesa?

Com todo o respeito, às vezes até acho que “merecemos” ser enganados.

Afinal, eles já demonstraram vezes sem conta que os interesses deles não são os nossos. Porém, ficamos escandalizados quando alguém tem coragem de apontar o dedo.

Faz lembrar a rábula do rei vai nu.

03:02 - Pensar crítico

Facto é, somos ensinados – ou devíamos – a pensar pela própria cabeça. Mas basta um figurão (político, economista ou banqueiro) aproximar-se de um microfone e baixa tudo as orelhas…

Como se eles fossem os donos da verdade.

A quantidade de vezes que um político diz uma coisa e, mais tarde, vem-se a confirmar uma realidade completamente oposta tornou-se tão comum que ficámos habituados à mentira.

Ninguém questiona.

Se Costa afirma que este é o menor défice da República tudo bate palmas. Mesmo que Sócrates tenha anunciado o mesmo, três anos antes da intervenção da troika.

Se a venda do NB é o melhor negócio possível, ninguém vai ficar escandalizado quando um dos envolvidos for escolhido para a administração de um qualquer banco.

Quando as finanças do país entrarem em colapso, vai tudo dizer que a culpa é dos especuladores.

Se um banco for à falência, ninguém é responsabilizado e os contribuintes que resolvam o problema. Entretanto, os supervisores garantem que está tudo bem.

03:55 - Fora da cama

“Pedro, hoje acordaste com os pés de fora?”

Talvez. Se calhar não me devia preocupar tanto…

Por outro lado, também sei que ninguém lhe vai dizer a verdade.

Lá fora, o mercado segue imperturbado com os meus devaneios.

Principais praças europeias jogam para o zero a zero. Cá dentro, o destaque vai para a Mota-Engil que nas últimas semanas tem estado em modo foguetão (hoje +2% para cima).

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.