Desabafo de um analista

O problema é sempre o timing! Aliás, existe um velho adágio sobre previsões: “estima um número ou uma data, nunca os dois”.

Maior Menor
Por 8 de Junho de 2016

.: Parque de diversões
.: Problema temporal
.: Follow the trend vs. Contrarian
.: Muuuuuu
.: Lembre-se de Paul

00:12 - Parque de diversões

Nos últimos dias, a cotação do BCP tem sido uma autêntica montanha-russa…

Ontem esteve a cair 7% durante a sessão para o mínimo histórico (2,05 cêntimos) e fechou o dia a disparar 15%…

(Você leu bem 2,05 cêntimos… e não 2 euros e 0,5 cêntimos… o preço tão baixo dos títulos fez com que os reguladores permitissem a negociação nas 4 casas decimais)

Hoje sobe mais 3%.

Mesmo assim, a cotação continua 62% abaixo do preço do início do ano.

Nem o facto de ser uma das grandes apostas do ano dos analistas portugueses “salvou” o maior banco privado português.

Este é o maior estigma do analista.

M5M080616

Cotação do BCP – Fonte: Google Finance

01:44 - Problema temporal

O problema é sempre o timing!

Aliás, existe um velho adágio sobre previsões: “estima um número ou uma data, nunca os dois”.

No caso dos analistas fundamentais, o preço-alvo da ação é sempre a longo-prazo.

No curto-prazo existem variáveis que (simplesmente) são impossíveis de incorporar num modelo de análise.

Não escrevo esta coluna na tentativa de defender o que era uma previsão imperfeita.

O que eu quero explorar é a dificuldade desta atividade.

Embora seja sempre fácil explicar as coisas em retrospetiva, é MUITO difícil prever como é que as coisas vão acontecer no futuro.

02:20 - Follow the trend vs. Contrarian

Há dois pontos básicos para fazer uma previsão:

1. Acredita que a tendência vai continuar;
2. ou pensa que vai acontecer uma inversão.

Como vimos, os analistas (maioria) estimavam no início do ano que a tendência de queda da cotação das ações do BCP não iria continuar (inversão).

A assertiva não foi confirmada. Ainda poderá ser…

Vamos a um exemplo muito prático:

A maioria dos economistas não viu a crise financeira de 2008. A maior parte acreditou que a tendência iria continuar.

Mas como a narrativa mais tarde confirmou, não foi isso que aconteceu… (o leitor já conhece a história).

Grande parte por causa do efeito manada. Isto é, a maioria dos economistas/analistas acha mais fácil replicar o que os outros economistas andam a dizer (papagaio financeiro).

Porque se (e quando) estiverem errados, serão só mais um no meio da multidão.

03:07 - Muuuuuu

É muito mais seguro estar errado quando todos estão equivocados.

Por oposição, se um economista prevê algo que vai contra a tendência e está errado, então só ele terá de suportar as consequências de estar enganado.

A vida é muito mais fácil quando toda a gente está errada, portanto, faz sentido ir com a manada.

Agora, isso significa que o ideal é ir contra o consenso?

Claro que não.

O verdadeiro analista deve dizer o que acredita, mesmo que isso signifique que está desacompanhado no seu erro (ou está rodeado de ovelhas).

E como vimos, estar errado pode ser uma questão de tempo. Durante largos anos, as personagens do filme “Queda de Wall Street” estiveram “erradas”.

03:59 - Lembre-se de Paul

Sendo assim, da próxima vez que ouvir um analista ou um economista, a fazer uma previsão, cheio de confiança…

Vale a pena recordar as palavras de Paul Samuelson: “os economistas previram nove das últimos cinco recessões”.

Aqui na Empiricus advogamos a nossa incapacidade de adivinhar o futuro.

Não estou a afirmar que apenas nós (a Empiricus) não sabemos exatamente o que estamos a fazer. Estou a afirmar veementemente que ninguém sabe, com precisão, o que anda a fazer.

Não usamos, no entanto, essa afirmação como justificativa para a inércia.

Ao investir, estamos a tomar decisões num ambiente incerto e dependente do futuro, que, por sua vez, é opaco.

Dentro dessa realidade, fazemos recomendações de investimento aos nossos leitores que acreditamos ser as mais adequadas.

No momento em que tivermos certeza absoluta, teremos enlouquecido.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.