Dever ou devedor

Com o atual executivo, adiamos o pagamento até 2019 (o que significa que vamos pagar mais juros), e quando trocarmos de credor (sim, porque ninguém paga realmente a dívida, pede-se ao mercado para pagar ao FMI) o Draghi já não estará lá para garantir estes juros.

Maior Menor
Por 14 de Janeiro de 2016

.: Regresso à volatilidade
.: O que foi desta vez?
.: Sai da frente Guedes
.: Empurra com a barriga
.: Alguém há de pagar

00:08 - Regresso à volatilidade

Mercados afundam 2% na Europa para perto dos mínimos dos últimos 3 meses.

Deixa-me adivinhar, são os chineses!?

Não. O principal índice chines até subiu 2% e o Shangai Composite Index fechou acima dos 3.000 pontos.

Desta vez são os yankees.

O sell-off no S&P500 colocou o índice perto dos mínimos do ano passado (1890 pts).

S&P500

01:23 - O que foi desta vez?

Para o investidor não-profissional (até para o profissional) as razões vinculadas nos media são pouco esclarecedoras.

“Investidores estão receosos quanto à continuada queda a pique dos preços do petróleo e preocupados com as ameaças ao crescimento global”

Dito assim, parece que a queda do petróleo resulta do abrandamento da economia mundial e, portanto, a queda da cotação confirma a hipótese.

A questão é que o dinamismo da economia usando a equivalência petrolífera deve ser lido do lado da procura. Menos procura igual a menos energia produzida (menos atividade económica). Faz sentido.

A contradição na teoria é que a demanda continua a subir (gráfico abaixo).

Sendo assim, a explicação para a queda do valor óleo negro está do lado da oferta (que continua a aumentar), e usando essa métrica não podemos aferir o estado da economia de forma tão direta como os jornalistas sugerem.

World Oil Demand

02:21 - Sai da frente Guedes

Portugal depende do financiamento externo.

A bolsa portuguesa depende do apetite ao risco dos investidores internacionais.

A cada vez menor liquidez da praça lisboeta face às congéneres europeias, faz com que os seus movimentos (para cima e para baixo) sejam mais bruscos.

Por exemplo, quando os índices europeus caiem 1%, o PSI cai 2%…

Nesta fase, o índice anda perigosamente a brincar com a linha dos 5.000 pts…

Alguns títulos portugueses estão em queda livre. A Mota-Engil, principal construtora nacional, perde 20% em pouco menos de duas semanas de negociação…

03:02 - Empurra com a barriga

Para agudizar o sentimento dos investidores que investem em Portugal, só faltava mesmo os últimos truques de magia do novo governo…

Da cartola saiu uma tartaruga em vez de um (Passos) coelho…

A velocidade com que vamos devolver ao FMI vai abrandar (empréstimos que têm uma taxa acima do que aquela que podemos obter atualmente no mercado de obrigações).

O plano do anterior governo previa o pagamento antecipado do montante em dívida até 2017 (aprox. 17 mil milhões de euros).

Isto para aproveitar as taxas de financiamento (bem generosas) que Portugal usufrui nos bilhetes do tesouro. (mérito do sr. Draghi).

Com o atual executivo, adiamos o pagamento até 2019 (o que significa que vamos pagar mais juros), e quando trocarmos de credor (sim, porque ninguém paga realmente a dívida, pede-se ao mercado para pagar ao FMI) o Draghi já não estará lá para garantir estes juros.

De uma assentada, Costa põe em check o trabalho dos últimos 4 anos.

04:11 - Alguém há de pagar

E porque é que vão mudar a estratégia?

Costa não pode ser assim tão despesista?

O problema é que como a redução do défice será mais lenta e o estado terá de se financiar em 17 mil milhões de euros até 2019 (dados provisórios), mais 11 mil milhões que o planeado pelo anterior executivo (6 mil milhões).

Isto sem contar com as habituais derrapagens…

As emissões terão de ser doseadas.

Como vamos aumentar o passivo porque vamos gastar mais, vamos ter de repartir a colação de obrigações durante um período mais longo.

Nas palavras do velho sábio Sócrates (o português, não confundir com o grego): “As dívidas não são para pagar… gerem-se”…

 

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Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.