Dia de São Centeno

Para bom entendedor, meia palavra basta. Não fosse a situação complicada e Centeno já estaria com guia de marcha para o centro de emprego.

Maior Menor
Por 14 de Fevereiro de 2017

.: Jogo de sombras
.: Estabilidade governativa
.: Quase uma boa notícia
.: Défice estrutural
.: Sine qua non

00:11 - Jogo de sombras

Houve “um erro de perceção mútuo” sobre as condições que isentavam a nova administração de entregar a declaração de rendimentos, afirmou Centeno.

Ele não mentiu.

António Domingues também não.

Falam “apenas” línguas diferentes.

Assim como ninguém é suficientemente ingénuo para acreditar nesta explicação…

Fico a imaginar qual seria o impacto de uma demissão no ministério mais importante da República.

…lembrando que os juros portugueses a 10 anos continuam a rodar nos 4%.

01:20 - Estabilidade governativa

Já perto da meia-noite, o presidente, após ouvir António Costa, reiterou a sua confiança no ministro das Finanças e decidiu que este não sai.

Tudo em nome do interesse nacional e da estabilidade financeira.

Para bom entendedor, meia palavra basta.

Não fosse a situação complicada e Centeno já estaria com guia de marcha para o centro de emprego.

Para quem não anda a tomar atenção é só mais um sinal que os acordos à esquerda estão esgotados e que existe um claro bloqueio na governação.

02:09 - Quase uma boa notícia

Enquanto escrevia este M5M, o INE divulgou os números do PIB do ano passado.

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Manchete no Jornal de negócios

Interessante como a narrativa dos jornais funciona para manipular a opinião pública.

A que expetativas se refere exatamente o matutino económico:

– aos 2,4% que o Governo defendia no programa eleitoral;
– aos 1,6% que o país cresceu o ano passado e que este mesmo Governo (na altura, na oposição) considerava inaceitável;
– aos 1,8% inicialmente inscritos no Orçamento de Estado de 2016;

Estas não serão com certeza.

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Convenientemente… usaram as últimas estimativas apresentadas pelo Governo no Orçamento do Estado para 2017 (+1,2%) que, de tão deprimidas, a surpresa a acontecer só poderia ser positiva.

03:07 - Défice estrutural

Com efeito, por mais que o executivo tente embandeirar em arco, o crescimento de Portugal continua anémico. E não será, com certeza, a este ritmo que iremos moer a montanha de dívida que carregamos às costas…

Em contrapartida, o défice orçamental terá ficado em 2,3% do PIB em 2016, estimam os peritos da Comissão Europeia.

Repare que o número foi alcançado por meio de receitas extraordinárias (perdão fiscal) e através de cativações – quase mil milhões de euros de investimento público (o mais baixo da história nacional).

Ou seja, descontando tanto os efeitos das medidas extraordinárias, como os efeitos do ciclo económico, os técnicos da Comissão garantem que não houve sequer ajustamento face a 2015!

Sendo assim, os números demostram, mais uma vez, que nada de estrutural está a ser feito nas finanças públicas e que havendo um abanão no quadro económico, o défice vai estourar com o teto de 3%…

04:01 - Sine qua non

Vamos assumir por um momento que o crescimento português dispara…

Ou seja, que a Europa entra num período dourado – não há um, sem o outro…

É consensual que os juros teriam de aumentar.

A Alemanha roda neste momento com inflação nos 2%. Se a atividade económica aumentar esse número rapidamente foge de controlo… Isso iria obrigar o BCE a subir as taxas de juro.

Nesse momento teríamos dois efeitos:

– os juros soberanos aumentariam (estão atualmente em mínimos) e os custos de financiamento do Estado português iriam atrás…
– por outro lado, a Euribor também dilataria, o que teria um efeito pernicioso no padrão de consumo dos cidadãos que passariam a ter menos dinheiro disponível…

Ou seja, se andarmos de mãos dadas com o resto da zona Euro não vamos lá…

Face a este cenário, a condição sine qua non para a resolução do problema da dívida é um crescimento da economia acima dos seus pares durante vários anos…

Acha isso verosímil quando não se toma sequer uma medida estrutural que atraia o investimento e fomente a iniciativa privada?

Se acha que não.. Então é melhor ler isto.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.