Diagnóstico: Euforia Trumpiana

Ao que parece – e essa é a uma ressalva importante – ainda não digerimos a vitória de Donald Trump. Pelo menos é a sinalização emitida pelos mercados.

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Por 22 de Novembro de 2016

.: Bola de cristal rachada
.: Salto histórico
.: O problema da dívida
.: Crédito à habitação
.: O dinheiro dos outros

00:11 - Bola de cristal rachada

Ao que parece – e essa é a uma ressalva importante – ainda não digerimos a vitória de Donald Trump. Pelo menos é a sinalização emitida pelos mercados.

Se haverá incertezas para a frente, não sabemos.

O futuro insiste em ser opaco para mim.

Talvez seja problema da minha bola de cristal.

O mercado sofre de refluxo crónico e a azia não está descartada nos próximos dias.

Mas, por agora, o Kompensan faz a sua magia.

01:22 - Salto histórico

Após salto pronunciado no apetite a risco nos últimos dias, os três principais índices de referência (S&P 500, Nasdaq e Dow Jones) terminaram a sessão em recordes históricos pela primeira vez desde 1999.

Como diria o grande filósofo Buzz Lightyear, “para o infinito e mais além”.

Duas forças empurram no sentido de acumulação de mais risco:

i) a perceção de que os estímulos fiscais da nova administração serão suficientes para instigar um novo ciclo de crescimento.

ii) esperanças de que o congelamento da produção em níveis recordes irá impactar seriamente o excesso de oferta de petróleo, provocando a alta da cotação do barril (em última análise, beneficiando o setor das commodities).

Estas duas ideias parecem ter suscitado um frenesim de compra de ações.

Sinceramente? Parece que o medo de não participar na festa se suplantou ao receio de estar a comprar gato por lebre.

02:08 - O problema da dívida

Quando efetivamente Trump tiver de enfrentar questões duras na negociação da dívida, aí sim testemunharemos se o plano tem pernas para andar.

As intenções talvez sejam boas, mas o Congresso e os governadores são velhos.

E será difícil ensinar-lhes um novo modelo.

Ainda ontem, o governador do banco central (ninguém menos que o vice-chairman Fisher) emitiu um aviso:

– “Não existe espaço de manobra para aumentar o défice sem consequências mais adiante”.

Embora esta afirmação seja seguramente importante para o futuro de um programa que pretende adicionar 5 triliões de dólares de dívida num momento em que yields começam a subir…

Por ora, a julgar pela reação do mercado, ninguém parece muito preocupado.

03:24 - Crédito à habitação

Nem só de Trump vive o homem.

Eu sei, parece que não existe mais nada a acontecer ao redor do mundo.

As minhas sinceras desculpas.

Para quem tem um crédito habitação, chegam boas notícias.

As taxas implícitas continuam a baixar, nos contratos existentes e no novo crédito, tendo fixado um novo mínimo em outubro, em 1,038%.

Para quem é aforrador são más notícias (mínimos nos juros do seu novo depósito).

O procedimento de redução de taxas de juro (ao nível do banco central) tem sempre winners and loosers. Jogo de soma zero entre aforrador e consumidor.

04:02 - O dinheiro dos outros

Quem ainda não percebeu como este jogo funciona foi o nosso Governo.

Ok… já percebeu… mas preferem fazer-se de papalvos.

Na sua última grande sacada, o primeiro-ministro assegurou que a Carris deve desconsiderar os ‘ebitdas’ (resultados operacionais) e concentrar-se em transportar pessoas.

Saberá muito bem, António Costa, que quando as empresas públicas têm resultados negativos, esse buraco é compensado com dívida, e são sempre os contribuintes que pagam a conta.

Discursos como estes estimulam o desperdício na função pública e incentivam a ineficiência.

Não é por acaso que o serviço da Carris decaiu de qualidade e é hoje latente a falta de motoristas e equipamentos.

Todavia, no final, o que interessa é oferecer benefícios a uns com o dinheiro dos outros.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.