Dias de um passado futuro

Parece que virou moda, nos países lusófonos, contratar ministros com doutoramentos nas grandes universidades norte-americanas e que, apesar das boas ideias, não têm o apoio da assembleia para as executarem.

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Por 25 de Novembro de 2015

.: Desafio total
.: Erros do passado
.: Impacto nos mercados
.: Banco Capitalizado Português
.: Diga lá outra vez

00:09 - Desafio total

Nunca na história de Portugal o segundo classificado nas legislativas tinha sido convidado a formar governo.

Sem uma solução viável à direita, o Presidente da República teve de se virar, relutantemente diga-se, à esquerda.

O desafio do PS é gigantesco.

Cumprir com os compromissos internacionais, ao mesmo tempo que promove o crescimento económico e devolve o rendimento às famílias.

Isto tudo enquanto negoceia cada medida com três partidos que nunca tiveram aulas de contabilidade.

O panorama é difícil, e se há alguma coisa que a lei de Murphy nos ensinou é que “qualquer coisa que possa correr mal, ocorrerá mal, no pior momento possível”.

01:01 - Erros do passado

O primeiro grande desafio do novo primeiro-ministro era formar um executivo que rompesse com o passado recente do partido Socialista.

Os nomes já saíram e os portugueses não vão, infelizmente, ficar surpreendidos:

Dos 17 novos ministros: 7 são antigos governantes em executivos socialistas (4 ministros e 3 secretários gerais).

Depois temos a figura de João Soares. A sua escolha para o ministério da Cultura é no mínimo questionável.

As caras novas são ao todo 9. O destaque vai para Mário Centeno, o novo ministro das finanças, e Manuel Caldeira Cabral, o responsável pela pasta da Economia.

A escolha de tecnocratas para posições chave na estrutura é arriscada. Sem uma maioria no parlamento e dependente de acordos à esquerda, as medidas de fundo muito dificilmente vão passar do papel.

Parece que virou moda, nos países lusófonos, contratar ministros com doutoramentos nas grandes universidades norte-americanas e que, apesar das boas ideias, não têm o apoio da assembleia para as executarem.

centenolevy

01:59 - Impacto nos mercados

Lá fora a notícia de um novo governo nem faz manchete no Financial Times.

As bolsas europeias recuperam das perdas de ontem e os principais índices sobem mais de 1%. À medida que se aproxima a reunião do BCE, os mercados valorizam na antecipação do anúncio de mais estímulos à economia.

Cá dentro, com o fim antecipado da austeridade, os donos do capital fazem contas à vida.

Para manter as contas públicas em ordem, se a despesa não vai diminuir, a receita vai ter de aumentar (mais impostos).

Como as famílias não são opção, só restam as empresas. Prova disso, várias companhias do PSI 20 já anunciaram o pagamento de dividendos extraordinários até ao final do ano.

Na bolsa de valores nacional, o alívio de termos finalmente alguma clareza política é contrabalançado negativamente pela perspetiva de uma politica de mercado de esquerda.

02:50 - Banco Capitalizado Português

Um dos grandes temas do novo governo é a estabilidade do sistema financeiro português. As notícias que foram hoje divulgadas confirmam isso mesmo:

A Autoridade Bancária Europeia informou que o BCP é o único banco português com um rácio de referência acima da média europeia.

Os restantes bancos (exceto o Novo Banco), apesar de acima dos mínimos exigidos, continuam com a necessidade de reforçar os seus rácios de capital para se equipararem aos seus pares europeus.

Além disso, com esta viragem política à esquerda, o dossier Novo Banco pode sofrer nova alteração e com efeitos prejudiciais para a banca.

Aumentos de capital, fundo de resolução, falta de rendibilidade, e crédito malparado vão continuar a ser os temas do setor financeiro de 2016.

03:45 – Diga lá outra vez

A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública vai emitir esta quarta-feira, 25 de Novembro, obrigações a 10 anos, com um montante indicativo entre 750 milhões e 1.000 milhões de euros.

A última vez que o país emitiu nesta maturidade foi em Outubro, quando colocou 950 milhões de euros, com uma taxa de juro de 2,3975%.

O mais provável é a emissão ser colocada perto dos 2,5% (yield da dívida portuguesa a 10 anos no mercado secundário).

Se no período em que as emissões coincidiram com períodos de maior incerteza política as taxas de juro não foram afetadas.

Agora que existe uma maior confiança, o impacto de um novo governo não deve ser relevante.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.