Dormindo com o inimigo

Na política, o estado de graça é na tomada de posse. Na falta de dados concretos, o céu é o limite. A partir daí é sempre a cair. Será madrasta a realidade.

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Por 15 de Novembro de 2016

.: Novo jogo na cidade
.: Dia de bondade
.: Trade de convergência
.: Bella Italia
.: Camisola amarela

00:09 - Novo jogo na cidade

Nada torna os mercados mais desordenados e insubordinados do que uma longa e constante ociosidade.

Até aqui o sujeito colocava-se sempre do lado dos Bancos Centrais.

Para bater o mercado, teria apenas de construir uma carteira de beta maior que 1. O FED, o BCE, o Banco do Japão e companhia fariam o resto…

De repente, anunciam-lhe um novo jogo na cidade (new game in town). Diante do sonho dourado de todos os Keynesianos, investidores saem do armário na expetativa de estímulos fiscais progressistas.

Até janeiro de 2017, mês da tomada de posse de Donald Trump, está a valer todo o tipo de especulação.

Na política, o estado de graça é na tomada de posse. Na falta de dados concretos, o céu é o limite. A partir daí é sempre a cair.

Será madrasta a realidade.

01:16 - Dia de bondade

Já falámos aqui do movimento nos mercados acionistas. Também tocamos levemente no tema do “reflation trade” (a inclinação da curva de juros).

Hoje, para não variar, os temas são os mesmos.

Bolsas sobem pelo mundo. Após o rali da véspera – e das últimas semanas – investidores sentem cada alta como a corroboração das suas teorias.

A disparada foi bastante intensa e rápida, não necessariamente ancorada em fundamentos sólidos.

Mas depois de tantos ganhos, o investidor começa a crer que deve ter alguma base de verdade. Não é possível estarem todos enganados… Ou é?

02:37 - Trade de convergência

A catálise para o movimento, além do natural reajustamento face a um futuro incerto – ah, mas estranhamente otimista – continua a ser um plano fiscal benevolente, que traria de volta a tão ansiada inflação e obrigaria o FED a um processo de normalização das taxas de juro mais rápido do que o antecipado.

É certo que o Banco Central norte-americano se prepara para elevar a taxa de referência do dólar em dezembro.

Isso espraia preocupações para o mundo, em especial para os países emergentes e respetivas moedas.

Na Europa, a expetativa de uma elevação mais forte que o estimado está a provocar o ressurgimento do “trade de convergência”.

Lembra-se? No início do ano acreditava-se na paridade euro-dólar (1€ = 1$) face a uma política monetária divergente (na europa expansiva e nos EUA contracionista).

Ele voltou…

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03:24 - Bella Italia

Enquanto isso, as histórias mal resolvidas passaram momentaneamente para segundo plano.

Já ninguém se lembra do Deutsche Bank. E o que é feito na Itália.

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Parece que as yields italianas também acordaram. E de perto de 1% em setembro saltam agora acima de 2%…

A apenas algumas semanas do referendo em Itália, a probabilidade de rejeição da reforma (e implicitamente “Italeave”) é agora de 60%, de acordo com o Deutsche Bank.

Com os problemas crónicos do costume: o crescimento dececionante, as preocupações sobre o sistema bancário e a ascensão do populista do euroceticismo…

O risco de uma nova fase prolongada de desgoverno poderia levar à instabilidade sistémica no médio prazo.

04:09 - Camisola amarela

Em Portugal, a coisa não está melhor (em termos de financiamento)…

À medida que os juros de longo prazo sobem em toda a Europa, Portugal segue na dianteira!

Com 300bp face às obrigações alemãs de avanço, já tem os braços no ar mesmo antes de cruzar a linha de chegada…

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Taxa de juros das OT 10 anos. Fonte: Bloomberg

Se em meio de uma certa acalmia no fluxo de notícias, as taxas já se encontram acima de 3,5%.

Imagine se houver uma crise em S.Bento…

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.