Draghi e o lobo

“Afinal vai mesmo haver aperto monetário no próximo ano”. É a aplicação prática do conto “O Pedro e o Lobo”.

Maior Menor
Por 21 de Julho de 2017

.: Na corda bamba
.: Até ao último minuto
.: O tom benevolente
.: Chefão da agência de rating
.: Belas negociatas

00:12 - Na corda bamba

Não foram raras as vezes em que, depois de terminar o M5M, constatei que algo surgiu no noticiário e toda a leitura que consumiu horas de elaboração já estava desfasada.

É o tipo de coisa que, logicamente, é impossível prever.

Mais ou menos como a célebre pergunta sobre “quais serão os cisnes negros deste ano?”… se é cisne negro, não dá para prever!

Onde é que quero chegar?

A bolsa tem andado ao sabor dos humores de Mario Draghi. E ontem, o italiano e ex-Goldman (que belo combo, hein?) decidiu falar.

01:33 - Até ao último minuto

Depois dos mercados financeiros terem reagido negativamente ao discurso de Draghi em Sintra, o presidente do BCE fez aquilo que sabe fazer melhor: deu o dito por não dito.

Aparentemente, agora os técnicos do BCE não observam nenhum sinal que justifique uma alteração na programação habitual e a inflação – o barómetro de toda a política monetária – permanece longe do target e dependente da morfina monetária.

Ainda há uma semana dizia que os riscos que limitavam a inflação eram “temporários”.

Será que quando terminar este M5M ele vai dizer outra coisa qualquer?

02:04 - O tom benevolente

Apesar do tom benevolente que afasta um cenário de aperto nas condições monetárias em breve, o euro disparou para máximos do ano e as taxas de juro baixaram.

Como?

Embora o Presidente do BCE, Mario Draghi, não tenha estabelecido uma data para fazer mudanças no QE europeu e tenha referido que nem sequer pensa nisso, os investidores tiveram outra leitura:

– “Afinal vai mesmo haver aperto monetário no próximo ano”.

É a aplicação prática do conto “O Pedro e o Lobo”.

03:40 - Chefão da agência de rating

Por terras de El-Rei D. Afonso Henriques, o destaque vai para os comentários do chefe da Fitch, James McCormack.

Diz o responsável da agência de notação – e eu tendo a concordar – numa fase em que os governos deviam tomar medidas para acelerar o ajustamento fiscal e resolver os problemas do endividamento público, fazem o contrário: abandonam a consolidação orçamental.

Porquê?

Porque os políticos populistas estarão sempre dispostos a aceitar uma maior flexibilização das políticas orçamentais para obterem ganhos económicos de curto prazo, mesmo que isso signifique um prejuízo maior no futuro.

Mas isso será um problema para outro resolver.

04:01 - Belas negociatas

De vez em quando, uso este espaço para alertá-lo sobre os conflitos inerentes à indústria de investimentos.

No início deste ano, li que o governo sul-africano rescindiu um enorme volume de contratos com um certo banco após um analista da instituição ter reduzido as recomendações de alocação no país. E mais: o próprio ministro veio a público desqualificar o trabalho de pesquisa (lembra-lhe alguém?).

“Ah, mas o que é que eu tenho a ver com a África do Sul?!”

Primeiro, poderia dizer que qualquer semelhança com o que acontece em Portugal não é mera coincidência. Bancos de investimento que dependem de grandes negociatas com o setor público não podem falar livremente do estado do país.

Ainda bem que a Empiricus não tem negócio com o Estado e eu posso falar daquilo que vejo.

Seguimos de olhos bem abertos.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.