E se Trump ganhar

Não assisti à discussão entre Donald Trump e Hillary Clinton na noite passada. Sinceramente? Se quiser ouvir meias verdades e imbecilidades bastava-me ligar a televisão no Mais Transferências.

Maior Menor
Por 27 de Setembro de 2016

.: Estava a falar
.: Em terras lusas
.: Coração do projeto europeu
.: US of A
.: Na prática

00:05 - Estava a falar

No outro dia estava a sair para almoçar, quando dei de caras com um grande amigo do meu pai. Sempre que o vejo tem um aspeto irrepreensível. Fato clássico com sapatos brogue, gravata Hermès e um penteado que me faz lembrar o Don Johnson, no Miami Vice.

Fala sempre como se soubesse um pouco mais que toda a gente. Também não admira. Ele trabalha como consultor financeiro numa das maiores gestoras de ativos do país…

Um senhor da velha guarda com mais de 30 anos de experiência em mercados.

Entre outras chalaças que não vêm para o caso, confessou-me que “nunca no meu trabalho fui tão afetado pela política como nestes últimos anos.”

É verdade. Quando se olha em retrospetiva para os mercados, poderia ter passado a maior parte dos anos 1990 e 2000 ignorando o governo, que não teria saído prejudicado.

Atenção: eu estou simplesmente a falar sobre o dia-a-dia dos mercados financeiros. As empresas no mundo real têm, invariavelmente, de lidar com contínuas mudanças da legislação.

Mas hoje em dia…bem, a política está em todo o lado.

01:12 - Em terras lusas

Há sempre um lado bom para as coisas, mesmo que baseadas numa mentira.

O programa de compras do BCE retirou pressão do financiamento da República Portuguesa.

Assim, investidores ignoram, momentaneamente, a probabilidade de receberem o seu dinheiro de volta e acreditam na boa fé do Banco Central Europeu.

Sempre disposto a ajudar, Draghi oferece taxa de juro bonificada aos portugueses.

O que induz o Governo a algum relaxamento nas metas fiscais.

02:09 - Coração do projeto europeu

A saída do Reino Unido foi uma estocada no coração do projeto europeu.

Em Bruxelas, os tecnocratas continuam a vender uma visão idílica da Europa.

Nas ruas, a classe média está saturada de promessas e exige mudança. Um pouco por toda a Europa, partidos populistas aproveitam a frustração do povo para fomentar ideias de separação.

Pois bem, este impasse tem produzido verdadeiras crises nos mercados.

Veja-se o setor bancário. Sem solução à vista. Alguns dos principais bancos europeus já desvalorizam mais de 50% desde o início do ano.

Estes incidentes resumem a importância da política nos mercados.

Grandes pedaços da nossa infraestrutura financeira estão dependentes da indulgência em curso ou da intervenção dos nossos políticos ou de outras instituições oficiais. E o mercado global de dívida está inteiramente à mercê dos bancos centrais.

03:04 - US of A

O que nos leva às eleições nos EUA. Não há como as ignorar. Os EUA são o país mais importante do mundo.

Não assisti à discussão entre Donald Trump e Hillary Clinton na noite passada. Sinceramente? Se quiser ouvir meias verdades e imbecilidades bastava-me ligar a televisão no Mais Transferências.

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Atualmente, as sondagens apontam para uma corrida bastante equilibrada. E tendo em conta as surpresas que já vimos este ano, ninguém ficará surpreendido se as pessoas votarem por “algo diferente”.

Então, o que é que acontece se o Trump ganhar?

Perspetivo uma reação estilo Brexit: muito barulho nos jornais e um grito de horror dos mercados… mas como o efeito de longo prazo iria demorar, rapidamente, pelo menos, as coisas iriam acalmar-se.

 

04:06 - Na prática

Em termos de políticas, o efeito mais óbvio – independentemente de quem ganhar – é que os EUA vão carregar no défice. Quer seja através do corte de impostos ou mais dinheiro em infraestruturas, o efeito sobre o mercado de dívida tem que ser considerado.

Da mesma forma, uma abordagem mais protecionista ao comércio e à globalização será inflacionária, o que também afeta o mercado.

Após as eleições, o grande evento será a reunião do Fed em dezembro.

Neste ponto, a eleição pode ser determinante: se Trump ganhar, este deve trocar Janet Yellen por alguém mais hawkish (propenso a subir juros).

Assim, poderíamos assistir a uma mudança na política monetária dos EUA, o que teria graves consequências nos mercados globais.

Mas vamos ver o que acontece…

Entre agora e 8 de novembro o meu conselho é manter a calma.

Esta é uma daquelas coisas em que não se consegue fazer uma previsão, por isso nem pense em mudar o seu plano de investimento com base em palpites.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.