Em vias de extinção

O problema persiste: existirão empresas nacionais com o potencial de cintilar nos radares estrangeiros?

Maior Menor
Por 25 de Agosto de 2016

.: Há cada vez menos
.: Arquitetura paisagística
.: Hércules
.: Fundos monetários
.: Destruição do erário público

00:04 - Há cada vez menos

A Águia-Imperial Ibérica, a ave de rapina mais ameaçada da Europa, só nidifica em Espanha e em Portugal, onde pode ser encontrada no Alentejo, no Algarve e na Beira Baixa.

Esta águia chega a ter uma envergadura de dois metros. A diminuição dos coelhos, a sua presa principal, e a fragmentação dos montados, o habitat que prefere para nidificar, têm colocado a espécie em risco.

A mesma triste sina sobrevém às cotadas nacionais. São cada vez menos as que resistem no índice que reúne as 600 maiores empresas europeias.

No apogeu da bolsa portuguesa, chegaram a ser 11 as cotadas representadas no “equivalente europeu” ao S&P 500 norte-americano; com a saída do BCP, agora restam apenas três (EDP, GALP e Jerónimo Martins).

Reiteramos a tese: marasmo económico, risco político e escândalos financeiros (não necessariamente por esta ordem) afugentaram os investidores internacionais da nossa praça.

Será que algum dia vão voltar?

01:09 - Arquitetura paisagística

O problema persiste: existirão empresas nacionais com o potencial de cintilar nos radares estrangeiros?

Estou a falar de empresas com relevância em termos de capitalização bolsista, quota de mercado e perspetivas de crescimento.

Sinceramente? O investidor internacional tem muito pouco apetite pelas “micromicro” caps nacionais. Por duas razões em particular: falta de visibilidade (já que existe muito pouco research das mesmas) e pela baixa liquidez (dificuldade em construir e desfazer a posição).

Em suma, restam as blue chips portuguesas. Mas elas existem?

Para quem não conhece o conceito, blue chip é uma empresa reconhecida nacionalmente, bem estabelecida e financeiramente sólida. A blue chipgeralmente vende produtos e/ou serviços de alta qualidade. É conhecida por enfrentar crises e operar com lucro, mesmo em condições económicas adversas, o que ajuda a contribuir para o seu longo histórico de crescimento estável e confiável.

Dentro do PSI 20 se calhar consegue, assim de cabeça, identificar 4 ou 5… o resto é paisagem, como se costuma dizer.

01:55 - Hércules

Imagino a dificuldade que será para um gestor de fundo de ações nacionais construir a sua carteira limitada a empresas tugas. Simplesmente, não existem opções suficientes para construir um portfólio eficiente.

Mas para o investidor a situação ainda é pior:

As comissões cobradas pelos fundos retiram muitas vezes uma parte considerável dos retornos obtidos nestes veículos de investimento.

Além disso, com os mercados no vermelho, os gestores além de não conseguirem rentabilizar os ativos que lhes são confiados, ainda cobram um prémio elevado para gerir esse património.

E o pior exemplo são os fundos de ações, onde as comissões aplicadas rondam os 2%, mesmo quando as rendibilidades são tenebrosas, com quedas de 10%, 20% e, em alguns casos, 30%.

03:01 - Fundos monetários

Algumas gestoras de fundos de mercado monetário e tesouraria adaptaram-se e estão a diminuir as comissões de gestão para montantes cada vez mais próximos de zero, numa tentativa de deter a queda das rendibilidades.

Tudo para diminuir os resgates: 0,1% de 1000 é sempre melhor que 1% de nada…

Num ambiente de taxas de juros historicamente baixas, estes fundos considerados mais conservadores, que investem essencialmente em títulos de dívida de curto prazo, têm encontrado muitas dificuldades para evitar perdas de capital.

A opção passa, por isso, por abraçar uma estratégia mais agressiva ou reduzir custos.

Traduzindo, ou vão full TINA ou cortam cabeças…

04:07 - Destruição do erário público

O que me traz de volta à história do momento: o aumento de capital da CGD. Saíram finalmente os números (esperam-se) finais da operação:

“O esforço público com a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos ascende a 4.160 milhões de euros, com 2,7 mil milhões a serem injetados diretamente pelo Estado, através de um aumento de capital. Há ainda 960 milhões de euros que serão transferidos, através da conversão em ações de instrumentos de capital contingente, os chamados CoCos” (Jornal de Negócios).

E para que serve esta batelada de dinheiro? (Os números são estratosféricos para a realidade portuguesa, mas com mil milhões para aqui e mil milhões para acolá, eu acho que os portugueses já perderam a sensibilidade aos números).

Basicamente serve para limpar o balanço do banco dos créditos vencidos!

Fala-se, também, de um provisionamento para indemnizações, que pode levar à saída de 2500 funcionários, mas trata-se apenas de 10% do montante do aumento de capital.

Algures no tempo foi concedido crédito que hoje está em incumprimento. Mandam as leis que se considere essa imparidade (movimento contabilístico de reconhecimento da perda) diretamente a resultados.

Pois bem, o resultado líquido consecutivamente negativo come o capital da empresa. Aqui, novamente, as regras europeias exigem que o capital de um banco respeite determinada percentagem dos ativos. Ora, através do reconhecimento de perdas cada vez maiores, esta percentagem torna-se cada vez menor.

No fundo, trata-se de tapar buracos com o dinheiro do contribuinte! O mal já está feito, mas o tempo passa e não se apuram responsabilidades de quem aprovou estes créditos no primeiro momento.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.