Emprestava dinheiro a um amigo caloteiro?

O Estado Português decidiu cortar o intermediário e emprestar diretamente ao cidadão, criando certificados do tesouro (que inteligentemente chamou de produtos de poupança).

Maior Menor
Por 27 de Abril de 2016

.: Amigo dos copos
.: Contas feitas
.: Amigos sim, dinheiro não
.: Cut the middle man
.: Risco elevado

00:10 - Amigo dos copos

Todos nós temos aquele amigo que vive acima das suas possibilidades…

No final do mês anda sempre ao tio ao tio.

Mas não é forreta. Quando tem… gosta de gastar e pagar copos aos amigos.

Aliás, é isso que nos surpreende:

Como é que ele consegue manter este estilo de vida?

Apesar de não ter um ordenado por aí além, consegue ter um carro vistoso e anda sempre com roupas catitas…

M5M27abril

01:22 - Contas feitas

Feitas as contas, o João recebe €1.000 e gasta €1.200 todos os meses…

São €2.400 de gastos acima dos €12.000 que leva para casa todos os anos.

O bon vivant negociou um bom spread com banco e paga apenas 5% na sua dívida do cartão de crédito.

Mesmo assim, no final do ano… são 120€ em juros sobre o deficit.

A este ritmo o João acumula €13.500 de dívida em apenas 5 anos…

Neste momento, ele já deve mais do que aquilo que recebe num ano de trabalho.

02:11 - Amigos sim, dinheiro não

Na última visita à sucursal, o gestor do banco diz-lhe que não concede mais crédito!

João vira-se para os amigos…

No entanto, quando o leitor lhe pergunta se ele vai mudar o seu lifestyle?

João responde que não! Ora essa, ele não precisa dos conselhos de ninguém!

“A dívida é para ser gerida, não para ser paga.”

Pois bem, parece que o seu amigo é o Estado português.

E desta vez, veio-lhe pedir a si, dinheiro emprestado.

03:33 - Cut the middle man

Não é a primeira vez…

O esquema já funciona assim há muito tempo.

Primeiro através dos bancos: o leitor depositava €1.000 e o banco pagava-lhe 4%.

No mesmo dia, o banco comprava obrigações nacionais a render 5%.

Ficava com 1% de lucro.

O Estado Português decidiu cortar o intermediário e emprestar diretamente ao cidadão, criando certificados do tesouro (que inteligentemente chamou de produtos de poupança).

Pois bem, o João volta a estender a mão: estão a ser comercializadas as Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV).

04:03 - Risco elevado

Além do risco de emprestar a uma pessoa como o João… quando adquire OTRVs, incorre no risco do Estado não conseguir pagar (como a Grécia ensinou aos seus credores).

Por outro lado, a rendibilidade oferecida de 2,2% bruta é bastante baixa para emprestar a alguém com este padrão de consumo…

Pior, a rendibilidade é inferior a alguns produtos de poupança já oferecidos pelo Estado, como os 2,25% dos Certificados de Tesouro Poupa Mais,

disponíveis nos CTT…

Mas é ainda menos considerando que nas OTRVs o investidor tem de suportar comissões bancárias: de subscrição, de custódia de títulos, juros e de reembolso.

Considerando o prazo de 5 anos e para o risco de crédito do estado português, 2,2% parece-nos pouco…

Além disso, estas obrigações também negociarão em mercado secundário…

Ou seja, se houver algum stress no mercado, as taxas irão subir e o valor da sua obrigação irá cair. Portanto, no caso de resgate antecipado poderá até incorrer numa perda.

Resumindo: há melhores alternativas para as suas poupanças!

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.