Episódio repetido

O início de ano tem sido uma carnificina. Para quem viveu a crise financeira de 2008, o ritmo das quedas e a forma como estão a acontecer em vários mercados, é motivo de alarme.

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Por 19 de Janeiro de 2016

.: Respira fundo
.: Conforto zero
.: Market meltdown
.: Boas colocações, taxa a subir
.: Prata da casa

00:12 - Respira fundo

O mercado reteve a respiração enquanto saiam os dados do crescimento da economia chinesa do último trimestre de 2015.

Depois de tudo o que foi dito sobre o gigante asiático já havia quem antecipasse uma hecatombe.

Ficou desapontado.

O crescimento ficou-se nos 6,8%, ligeiramente abaixo dos 6,9% estimados.

Apesar de ser o ritmo de desenvolvimento mais baixo desde 2009, os investidores tiveram outra interpretação:

“Números piores, mais margem para intervenção do Banco Central”.

01:11 - Conforto zero

Viciados no dinheiro fácil, os investidores já contam com a ajuda do Banco Central antes mesmo de este se pronunciar sobre os dados.

Por isso é que maus indicadores têm o condão de fazer subir o mercado.

Já ninguém compra porque observa valor nas empresas, investe porque os Bancos Centrais vão intervir para inflacionar o preço dos ativos.

E quanto deixarem de o fazer, o que é que acontece?

Vai estar tudo com os olhos nos EUA, agora que é a primeira economia que tenta andar sem ajuda de muletas.

02:11 - Market meltdown

Ontem perguntava-me um leitor: qual é a probabilidade de uma market meltdown?

Vamos olhar para a América do Norte, afinal é lá que tudo começa e tudo acaba…

O início de ano tem sido uma carnificina. Para quem viveu a crise financeira de 2008, o ritmo das quedas e a forma como estão a acontecer em vários mercados, é motivo de alarme.

No entanto, existem diferenças muito substanciais entre o estado da nação hoje e aqueles dias negros.

A economia e o sistema financeiro estão em posições muitos diferentes. Os rácios de endividamento dentro dos EUA não estão tão altos (exceto o governo).

Em 2007, o endividamento das famílias representava 130% do seu rendimento agora está nos 103%.

Os bancos estão muito mais capitalizados, e os rácios de capital são hoje o dobro do que eram no primeiro trimestre de 2009.

A China é um wild card e os riscos externos são os mais difíceis de controlar (como o endividamento em dólares de países com a sua própria moeda).

Depois do programa de estímulos a Fed não tem muito mais margem de manobra…

Por enquanto, a tempestade não parece ter a força de um cataclismo.

Após 2008, muitos investidores têm vindo a temer que cada episódio nos mercados financeiros é outro cisne negro.

Eles devem-se lembrar que há os brancos também.

household

03:12 - Boas colocações, taxa a subir

As últimas colocações de dívida portuguesa têm sido um sucesso.

A procura excede a oferta em várias vezes…

Os britânicos são os que compram mais…

A verdade é que as yields não param de subir no mercado secundário (mercado onde a dívida é negociada após a colocação) de há um mês a esta parte.

Não será alheio o fato de Portugal estar a tomar medidas pouco populares junto dos investidores internacionais.

Aumento de capital do Novo Banco, a reversão da privatização da TAP, adiamento do reembolso do FMI, relaxamento do ajuste fiscal, alteração da matriz de crescimento…

taxa de juro obrigações

04:04 - Prata da casa

Qual é a grande novidade deste governo?

Devolução de benefícios e promoção do consumo interno.

Pensava que já tínhamos entendido que esse modelo não funciona.

A memória é curta, mas mesmo assim Cavaco decidiu avisar:

“Os motores da nossa economia não podem deixar de ser o investimento (o investimento privado) e as exportações”

“Se não for assim, o nosso país irá encontrar-se, mais tarde ou mais cedo, em situações de desequilíbrio externo insustentáveis e com dificuldades de financiamento”.

Ninguém gosta de receber conselhos do Presidente da República, mas neste caso, ele até tem razão.

 

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Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.