A esquerda inflacionista

A verdade é que os nossos líderes políticos têm conduzido a inflação com a sua própria impressora e as políticas fiscais. Eles prometem lutar com a mão direita as condições criadas com mão esquerda.

Maior Menor
Por 22 de Setembro de 2016

.: Agitando com a mão esquerda
.: Loja de conveniência
.: Recurso ao Banco de Portugal
.: Preço do arroz
.: Quem teria coragem?

00:11 - Agitando com a mão esquerda

Olho para a esquerda, Nenhum assunto é tão discutido nos dias de hoje – ou tão pouco compreendido – como a inflação.

Os políticos em Frankfurt falam dele como se fosse uma aparição horrenda, sobre o qual não têm qualquer controlo – como um dilúvio, uma invasão estrangeira ou uma praga.

É algo que passam a vida sempre a “lutar” ou a “estimular” – e exigem cada vez mais recursos e maiores poderes para fazerem o trabalho.

No entanto, a verdade é que os nossos líderes políticos têm conduzido a inflação com a sua própria impressora e as políticas fiscais.

Eles prometem lutar com a mão direita as condições criadas com mão esquerda.

01:22 - Loja de conveniência

Esta ideia persegue-me desde que eu contemplava a minha avó a gerir a sua loja de conveniência. Das grandes lições que aprendi, inconscientemente admito, foi a noção de inflação.

Hoje em dia ela é tão reduzida que ninguém dá por “ela”. Mas no tempo do velhinho escudo, a inflação galopava em Portugal. E numa loja numa pequena aldeia do Alentejo esse efeito era facilmente observável.

Um pacote de arroz que custava 50 escudos, no final do ano poderia custar 55. Quando eu perguntava à minha avó porquê, a resposta dela era sempre a mesma.

O distribuidor aumentou o preço! Se eu quero manter a minha margem tenho de cobrar mais aos clientes.

Aposto que se perguntasse ao distribuidor, ele diria que a culpa era do produtor. O arrozeiro acusaria o aumento do preço das matérias-primas e os aumentos que deu aos trabalhadores.

Os mesmos trabalhadores que se queixavam do aumento do preço do arroz na loja da minha avó e que, no dia seguinte, voltariam a reclamar um aumento para poderem manter o seu poder de compra.

02:33 - Recurso ao Banco de Portugal

Não sabiam eles que a inflação, sempre e em toda parte, é causada, principalmente, por um aumento na oferta de dinheiro e crédito. Em Lisboa, défices públicos substanciais eram financiados em grande medida por recurso ao Banco de Portugal.

Na prática, imprimiam escudos para financiar os gastos da República (volume de notas a circular).

Por isso, usar a palavra inflação apenas para justificar “um aumento dos preços” é desviar a atenção da autêntica causa e da sua verdadeira cura.

03:44 - Preço do arroz

Assim, quando a oferta de dinheiro aumenta, as pessoas têm mais dinheiro para bens e serviços.

Se o abastecimento de bens não aumenta – ou não aumenta tanto quanto o fornecimento de dinheiro – então os preços dos bens tendem a subir.

Cada escudo torna-se menos valioso porque há mais escudos.

Portanto, mais escudos seriam oferecidos contra, digamos, um pacote de arroz ou um quilo de laranjas.

Fazendo com que o “preço” de uma unidade de arroz aumentasse. Ou seja, o preço sobe não porque os bens são mais escassos, mas porque os escudos são mais abundantes.

04:23 - Quem teria coragem?

Mercados mundiais em polvorosa desde ontem, com a decisão do Fed de manter as taxas de juro inalteradas.

Janet Yellen não dececiona: mantém uma postura claramente dovish (pouco agressiva para subir o juro). Nada contra ela especificamente.

Quem teria coragem de assumir para si o risco de tomar medidas capazes de abortar o processo de recuperação da economia e eventualmente, com um alfinete, estourar a grande bolha de ativos criada pelos Bancos Centrais desde 2009?

No processo, no entanto, destrói as poupanças do aforrador comum e cria a conjuntura perfeita para uma explosão inflacionista.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.