Estamos em saldos

Se existem alguns estoicos que têm a paciência necessária para esperar por uma bagatela, agora no mercado bolsista acontece exatamente o oposto.

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Por 13 de Dezembro de 2016

.: Compras de Natal
.: O anti-saldos
.: Factos
.: Peru de Natal
.: Rally do Pai Natal em números

00:07 - Compras de Natal

Estamos apenas a 12 dias do Natal e ainda não comprei um presente. Desculpa mãe. E não é por falta de ideias… Ok, admito. Talvez seja em parte.

Confesso que comprar um presente é uma das situações mais stressantes que consigo imaginar (problemas de primeiro mundo).

Mas talvez a principal razão seja a minha forretice.

Não gosto de pagar acima do valor justo. E se os saldos começam logo após o dia de Natal, para mim não faz sentido comprar agora, quando sei que o preço estará 20%, 30% ou até 50% abaixo do valor atual daqui a 20 dias.

Algumas promoções até começam antes da Consoada.

No entanto, se existem alguns estoicos que têm a paciência necessária para esperar por uma bagatela, agora no mercado bolsista acontece exatamente o oposto.

01:15 - O anti-saldos

O desempenho das ações nos EUA tem sido festivo (no mínimo). Só em novembro, o DOW subiu 6,4%, para um máximo histórico de 19,192 pontos.

Este dezembro já apreciou 3,5%…

O resultado do referendo italiano e a incerteza económica e política na Europa nem abanaram o ímpeto comprador.

Convenhamos que esta sequência de valorizações não aconteceu porque as ações estavam especialmente baratas. De facto, transcorridos oito anos de rally, a maioria das métricas de avaliações estão em amarelo intermitente, se não no vermelho.

Em linguagem natalícia, seria o oposto dos saldos.

Faz-me lembrar aqueles consumidores que compram tudo antes do Natal com medo de uma eventual escassez. Que até pode ser verdade. Mas o que não falta são oportunidades para comprar outras camisolas a preço mais atrativos (ou ações, aliás).

02:09 - Factos

O mais curioso é que o suporte que os ativos de risco receberam das taxas de juro historicamente baixas está a dissipar-se à medida que as yields sobem ao redor do mundo…

E não é como se de repente o mundo tivesse entrado numa espiral de pujança económica…

Não entrou. O crescimento continua anémico em grande parte do mundo e apesar de as Trumponomics terem abrilhantado as expetativas de crescimento nominal (via inflação)…

Nem tudo são rosas…

Os bancos centrais estão progressivamente a fazer o desmame do mercado. Nesse sentido, a FED vai elevar o juro básico amanhã e o BCE acaba de diminuir o pacote de compras mensais…

Pior, parece-me improvável que os países que implementaram programas de QE (impressão de moeda) consigam normalizar as suas taxas de juro sem provocar um desequilíbrio no sistema financeiro…

Seria demasiado fácil… (ligar e desligar a torneira).

03:05 - Peru de Natal

No fundo, no fundo, existe uma mistura de esperança que relaciona crescimento e inflação…

Espera-se que o corte de impostos prometido por Trump despolete uma onda de repatriamento de capitais das empresas americanas que têm grande parte dos seus lucros parqueados ao redor do mundo…

E, depois, assume-se que esse dinheiro possa ser usado em recompra de ações ou em operações de fusões e aquisições…

Além disso, a desregulamentação de alguns setores reforça este positivismo.

Contudo, da expectativa à realidade vai uma grande distância e se Trump não conseguir implementar as medidas ou se estas não provocarem todas as benesses que o mercado desconta… então venham daí os saldos…

04:23 - Rally do Pai Natal em números

Por curiosidade, fomos analisar se o rally do Pai Natal tem um algum suporte estatístico…. podia ser só um mito, como tantos outros no mercado financeiro.

Pedi ao Diogo, o nosso analista de ações, para pegar nas rendabilidades médias do PSI20 e S&P500 desde 1994 e chegámos ao seguinte quadro…

rally-do-pai-ntal-em-numeros

Verifica-se que, em média, tanto o índice português como o principal índice bolsista norte-americano têm uma performance positiva no mês de dezembro.

Portanto, existe alguma base de verdade nos gráficos com o Pai Natal e o trenó…

No entanto, está longe de ser o melhor mês do ano…

No caso português, o efeito de janeiro é muito mais relevante que o espírito natalício. E nos EUA, abril é historicamente o mês mais vigoroso.

Claro que esta informação é uma mera curiosidade. O que aconteceu no passado diz-nos “alguma” coisa sobre o que pode acontecer no futuro, mas muito pouco para basear decisões de investimento.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.