Eu ganhei, nós empatamos, eles perderam

Acredito sinceramente que um analista financeiro tem de ser polémico. Não estou a falar em ofender ninguém. Falo simplesmente em apresentar ideias fora do consenso.

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Por 18 de Outubro de 2016

.: Pé no travão
.: Gerando polémica
.: O jantar está pronto
.: Efeito manada
.: Direções opostas

00:08 - Pé no travão

Para o mundo que eu quero descer. Está chato. Já ninguém pode ter uma opinião divergente que chovem críticas de todos os quadrantes.

Eu honestamente gosto de ser eu mesmo…

Sem pretensiosismo, sem truques, sem falso moralismo. Eu poderia ser consensual, poderia ser condescendente e moldado pela sociedade, poderia ser “cavalheiro”.

Até poderia ser a pessoa mais agradável do mundo, mas não.

Prefiro ser fiel às minhas ideias. E reconheço que isso pode incomodar algumas pessoas… sinto muito!

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Talvez não tanto como o Mister…

01:22 - Gerando polémica

Acredito sinceramente que um analista financeiro tem de ser polémico. Não estou a falar em ofender ninguém. Falo simplesmente em apresentar ideias fora do consenso.

Para ler que o mundo amanhã estará exatamente igual a hoje, basta ligar-se aos meios de comunicação convencionais. Televisão, jornais, rádio…

Coisas que não eram esperadas acontecem muitas mais vezes do que as pessoas antecipam…”Terramotos que acontecem uma vez em cada 100″, por exemplo, na realidade acontecem a cada 88 anos.

Os dados estatísticos referem-se a estas protuberâncias ímpares nas extremidades das curvas em forma de sino como fat tails.

Improvável não é sinonimo de impossível. Assim, eventos raros acontecem exatamente quando ninguém está à espera.

Infelizmente, o leitor não vai ouvir sobre eles na media convencional. Nesse acampamento, ninguém reconhece a sua incapacidade de prever o futuro. Ninguém assume enganos. São todos donos da verdade.

Eu considero-me humano. E, consequentemente, vocacionado para errar.

Essa realização prepara-me para o desconhecido. O reconhecimento de que o futuro é opaco obriga-me a uma preparação. Escrutino o presente em busca de proteção contra os males de amanhã.

02:33 - O jantar está pronto

Este meu lado cético evitou-me alguns dissabores na vida. Sobretudo, no mercado financeiro.

À medida que as bolsas sobem, as pessoas ficam menos preocupadas com o risco. Ficamos quase entorpecidos pela repetição do mesmo evento.

Vejo as cotações de hoje e “bolsas avançam com notícia de mais estímulos”. Banco de Inglaterra pondera pôr a carne toda no assador… Bocejo. Desculpe.

Este fenómeno é sobejamente ilustrado pelo peru de Taleb.

Considere uma ave galiforme que é alimentada todos os dias. Cada refeição vai confirmar a convicção do pássaro de que a regra geral de vida é ser alimentado todos os dias por membros amigáveis da raça humana.

Na tarde de quarta-feira, antes do dia de Ação de Graças, algo inesperado vai acontecer ao peru: ele será obrigado a rever a sua crença.

Em 2008, as bolsas caíram cerca de 50% desde os seus máximos. Se perguntasse a alguém que operava em mercados naqueles dias, o mundo não podia ser melhor…

Oito anos depois: preferimos ignorar a ciclicidade do mundo. Decidimos esquecer uma das leis fundamentais da física: tudo o que sobe, tem de cair.

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Gráfico 10 anos S&P500 – Fonte: Yahoo Finance

03:10 - Efeito manada

Faço uma ressalva: não vai ser amanhã (até pode). Ninguém sabe ao certo.

De facto, até é mais provável que continue a subir… momentaneamente, o efeito manada é mais poderoso do que as leis da física.

Se juntarmos a falta de alternativas de investimento à mão visível dos bancos centrais, na maior manipulação financeira da história, então os fundamentais serão ignorados durante mais algum tempo…

Tudo opera para disfarçar os sinais económicos de desgaste do ciclo económico.

Mas não se iluda: se há palavra que o mercado odeia é “RECESSÃO”.

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04:02 - Direções opostas

Quedas no mercado de mais de 20%, acontecem (quase) sistematicamente antes de uma recessão…

Assim, analistas avaliam constantemente sinais na atividade económica norte-americana, pois a antecipação de uma recessão poderá salvar as carteiras dos seus clientes de perdas avassaladoras.

Diz-se à boca cheia que os economistas previram com êxito 7 das últimas 3 recessões… Isto é, eles erram mais do que acertam… não há como ter garantias.

Para alguns (eu incluído), a trajetória de elevação dos juros nos EUA poderá ser o tipping point que pode dar início à inversão que eventualmente terá de acontecer.

É por isso que Janet Yellen se tornou a personalidade mais importante nos mercados.

Vamos continuar em alerta.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.