Eu também gosto quando cai

Hoje, ainda em fase de acumulação de património, dedico grande parte da minha poupança mensal a investir em ações. (…) Já também gosto quando cai.

Maior Menor
Por 14 de Outubro de 2016

.: Outono à vista
.: Cotações no ecrã
.: Cabeça a mil
.: Tá bom, mas não se irrite
.: Uma arte de colecionador

00:09 - Outono à vista

O meu dia a dia na Empiricus começa sempre igual.

Mas confesso que eu tenho chegado mais mal-humorado.

A temperatura mais baixa e as chuvas repentinas já fazem do casaco e do guarda-chuva itens obrigatórios do lisboeta.

Os ventos gelados no Saldanha me puxam (e gelam) as orelhas.

Teimoso, prefiro achar que os 50 metros entre a escada do metro e a entrada do prédio da Empiricus tem uma espécie de vácuo climatológico.

Vejo o Pedro a olhar as cotações na tela e a navegar pelos jornais de todo o mundo. Tiro as folhas do cabelo e seco a camisa com o casaco que esqueci ontem. Mesmo antes que ele me diga algo, torço para que a notícias sejam boas.

Afinal, porque torcemos por boas notícias e para o mercado subir?

01:22 - Cotações no ecrã

Na frente de várias telas, a ver as cotações piscarem, eu já fui um trader adepto… com a diferença que a minha equipa era a bolsa. A cada alta, um dia de trabalho vitorioso.

As mesas das corretoras têm um pouco disso. Afinal, se o mercado sobe, os clientes ficam mais ricos e as comissões aumentam…

Toda a gente fica mais feliz.

Até o vendedor da loja de bebidas comemora. “Renato, meus melhores clientes são banqueiros, gestores de fundos, traders, advogados… quando essa turma está a ganhar dinheiro, eu vendo muito mais.”

O leitor já viu em vários filmes o talento de um trader em dar festas.

cotações-no-ecrã

Um ex-chefe, num momento raro de lucidez, me disse: “em tempo de euforia, até lixo sobe. Quem é mais irresponsável, ganha mais”.

“Me passa o telefone do seu compadre que vende os vinhos? Preciso comprar umas garrafinhas de Château Lafite para o fim de semana. Aniversário da sogra, sabes como é…”

02:33 - Cabeça a mil

Na crise de 2008, eu cheguei a pensar em largar tudo. Minhas economias derreteram, vários clientes quebraram… perdi a convicção no mercado financeiro.

Como carreira e forma de acumular património.

Mesmo que a teoria explique, a cabeça não acalma. Nem aceita.

Todos os dias, enchia os meus 4 ecrãs com sites de notícias em busca de alguma esperança.

No momento em que apareciam especialistas de tudo quanto é lado, também pipocavam entrevistas com grandes investidores…

Aquele perfil clássico à la Buffet: senhores com mais de 60 anos, empresários dos mais variados setores, e que ao longo da vida construíram a maior parte do património no mercado acionista… Investidores natos, self-made.

A jornalista pergunta: “O senhor fica triste de perder milhões e milhões num único dia? Qual a dica para o pequeno investidor?”

“Minha querida, se não vendi nada, não perdi. Triste não é a queda da bolsa, é não ter mais dinheiro para investir e comprar mais. Sinto-me como a Grace Kelly numa loja de sapatos.

“Vou usar os 100 milhões que as empresas me pagam de dividendos para comprar o que estiver na bacia das almas… Eu gosto quando cai.”

03:20 - Tá bom, mas não se irrite

Entre todas as notícias essa era a que mais me intrigava. Como um sujeito que tem 70, 80, 90 ou até 100% do património investido em ações, e vê o seu saldo cair pela metade, pode estar tranquilo desse jeito?

Falar que gosta quando o mercado cai? Quer ficar mais rico ou mais pobre, valha-me Deus?

Essa paz de espirito me parecia uma mistura de blefe com “Olha, seu coitado, pequeno investidor, eu posso achar e falar o que eu quiser”…

Me custou algum tempo até entender.

04:01 - Uma arte de colecionador

Os grandes investidores são colecionadores.

Olham muito, estão atentos, mas executam pouco.

Para fazer um bom negócio, você precisa ter dinheiro disponível, sempre. Se tiver investimentos que geram renda recorrente, sempre estará pronto para aproveitar as boas oportunidades…

E se a empresa é boa, o negócio não é cíclico, mesmo que suas ações caiam 40, 50%, dificilmente seus lucros vão cair na mesma proporção…

E, por isso, numa estratégia voltada para dividendos, estará comprado um fluxo de dividendos com desconto…

E nunca dá errado? É claro que dá.

Mas só ganha dinheiro no mercado quem confia em sua estratégia para enfrentar os momentos mais difíceis e aplica com disciplina.

Hoje, ainda em fase de acumulação de património, dedico grande parte da minha poupança mensal a investir em ações.

Meu principal risco é se o mercado subir muito (e muito rápido). Não vou ter tempo de comprar ainda barato o que lá na frente vai me dar dor de cabeça de não poder comprar mais.

Já também gosto quando cai.

p.s.: Peço desculpa ao leitor se o texto ficou muito abrasileirado, mas acabei de tomar um café brasileiro para tentar aquecer nesse frio de Outono.

Renato Breia, CFP®, Analista-Chefe de Investimentos

Formado em Economia pela PUC-SP e Planejador Financeiro certificado pelo IBCPF. Iniciou a sua carreira como analista de ações na Link Corretora e tem experiência de mais de 12 anos em mesa de operações, gestão de fundos, relações com investidores e alocação de patrimônio.