Fiel a uma ideologia

Há um consenso crescente no mercado de que a lei dos rendimentos decrescentes está a impactar decisivamente os esforços do BCE para reanimar a economia da zona euro.

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Por 17 de Junho de 2016

.: My name is Bund, James Bund
.: O que esconde o negativo
.: Lei dos rendimentos decrescentes
.: Street cred
.: Desgraça no poleiro

00:07 - My name is Bund, James Bund

A Alemanha vestiu o fato de gala e entrou no clube mais restrito da cidade.

Estamos a falar dos “devedores soberanos que recebem por pedir emprestado a uma década” – nome excessivamente comprido para um clube de cavalheiros, diga-se…

Junta-se assim ao Japão e à Suíça.

Outros países da zona Euro, como a França, Espanha e Itália também gozam de um custo de financiamento a 10 anos perto ou em mínimos históricos.

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Taxas de juro de obrigações a 10 anos. Fonte: Bloomberg

Aqui em Portugal, também já sentimos o efeito-Draghi com taxas de juro muito abaixo do que aquilo que estávamos habituados (ou que o nosso rating poderia sugerir).

01:12 - O que esconde o negativo

Ontem, as yield das obrigações (bunds) alemãs afundaram para o mínimo de todos os tempos (-0.038%).

Em parte, este movimento reflete a aversão ao risco dos investidores, uma semana antes do referendo do Reino Unido.

Mas espelha conjuntamente um problema bastante mais grave:

As taxas negativas na Alemanha são um sinal muito contundente que a política do Banco Central está a perder a luta contra a deflação.

Chamando o nome pelos bois: o quantitative easing está a falhar!

02:09 - Lei dos rendimentos decrescentes

Há um consenso crescente no mercado de que a lei dos rendimentos decrescentes está a impactar decisivamente os esforços do BCE para reanimar a economia da zona euro.

Ou seja, por cada de 1 euro adicional de estímulo, o resultado é cada vez menor.

Depois de aumentar o programa de compra de títulos para 80 bilhões de euros por mês, o balanço do banco central está prestes a atingir um recorde:

Alcançou os 3,09 triliões de euros (valor de títulos comprados pelo BCE com dinheiro imprimido do nada)…

E se a quantidade de dinheiro aumentou absurdamente, as expetativas de inflação vão no sentido inverso e estão cada vez mais afrouxadas: 1,35% para os próximos 5 anos.

Muito longe do target de 2% (mandato do BCE).

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03:16 - Street cred

A situação põe em causa a credibilidade da autoridade monetária da zona euro.

É como se, Mario Draghi tivesse garantido no início de época que ia ser campeão.

Entretanto, terminou a época em 6º.

O leitor confiaria nele? Pois.. os agentes económicos também não.

Para ser justo com o presidente do banco central, há apenas um tanto que política monetária pode fazer por conta própria…

A grande fatia tem de ser feita pelo setor privado.

Para isso, os governos têm de criar condições para o investimento (e não falo de atribuir subsídios a torto e a direito, falo em aumentar o payout para quem empreende e corre riscos).

04:21 - Desgraça no poleiro

Voltando a uma história muito nossa, o índice PSI-20 está a 100 pontos dos níveis em que negociava em 1996.

A bolsa portuguesa (à exceção da grega) é a pior da zona Euro nos últimos anos.

A tendência de queda que transporta há vários anos, foi neste último mês alavanca pelo clima de instabilidade nos mercados provocado pelo referendo no Reino Unido.

Esta situação não é de agora. Há muito tempo que o PSI saiu do radar dos investidores internacionais…

E os investidores portugueses já perderam demasiado dinheiro nas ações nacionais.

Isso não quer dizer que não existe um conjunto (diminuto) de empresas com valor na nossa praça.

O problema é que ninguém lhes pega.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.