Há vida além da bolsa

Isso poderia provocar uma sacudidela nas bolsas… Qualquer que seja a reação do mercado, o leitor deve manter-se plácido em relação às suas convicções.

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Por 19 de Julho de 2017

.: Par cambial
.: Sacudiu vai abalar
.: Mark to market
.: Valuations
.: Hábitos incorrigíveis

00:12 - Par cambial

O grande mover das últimas semanas tem sido o euro/dólar…

A falha na implementação da reforma da saúde sinalizou ao mercado que os outros esforços legislativos de Trump, como a revisão do código tributário e a implementação do estímulo fiscal, podem não ser favas contadas…

A juntar a isto, as recentes leituras em baixa da inflação nos EUA e a perspetiva de que os outros grandes bancos centrais também podem juntar-se à Fed no aperto da política monetária, alimentam ainda mais o movimento…

O resultado está à vista: o euro disparou.

01:33 - Sacudiu vai abalar

Hoje, porém, o euro corrige dos últimos ganhos à medida que os investidores começam a ponderar sobre o que poderá sair da reunião do BCE programada para esta quinta-feira.

Depois dos comentários hawkish de Mario Draghi, o mercado está reticente…

Será que a autoridade do euro irá sinalizar uma redução dos estímulos?

Isso poderia provocar uma sacudidela nas bolsas…

Qualquer que seja a reação do mercado, o leitor deve manter-se plácido em relação às suas convicções.

Se forem empresas sólidas e rentáveis ainda melhor.

02:22 - Mark to market

As bolsas europeias seguem o dia ligeiramente em alta, suportadas por bons números corporativos.

No final do dia, o que interessa é o desempenho das empresas…

…ou deveria ser.

Do outro lado do Atlântico, o foco da sessão de hoje estará na divulgação dos resultados da Morgan Stanley, depois dos números dececionantes da Goldman Sachs.

Para quem não acompanha o mercado, a época de resultados ainda vai no adro e apenas 47 das empresas do S&P500 divulgaram as suas contas….

De acordo com a Bloomberg, 77% dessas empresas superaram as estimativas de lucro, mas a taxa de crescimento (13,5%) desacelerou em relação ao primeiro trimestre (14,9%).

Vale a pena relembrar que estas estimativas tinham sido revistas em baixa…

03:06 - Valuations

Então os analistas reveem em baixa as suas estimativas e as empresas batem as previsões…

Trata-se, efetivamente, de desonestidade intelectual.

Diante de uma onda de liquidez de proporções épicas, tudo funciona para alimentar a narrativa de que as empresas estão melhores e mais fortes e que, portanto, os valuations são justificáveis…

Segue o jogo.

04:09 - Hábitos incorrigíveis

De entre os incontáveis defeitos dos nossos políticos, um é especialmente incómodo: aprovam-se leis sem qualquer sentido apenas para encaixar numa narrativa popular.
Já circulava desde abril de 2016 a proposta para limitar os pagamentos em dinheiro vivo a 3.000 euros. Entretanto, o Parlamento pediu um parecer ao BCE sobre o diploma.

A autoridade monetária arrasou o documento.
Primeiro, porque estas regras não impedem que os pagamentos em dinheiro continuem a ser feitos.

Segundo, porque são discriminatórias (os residentes têm restrições muito maiores que os estrangeiros) e incoerentes com o resto da Europa (limite de 10.000 euros).

E, por último, porque o pagamento em dinheiro é muito importante para algumas franjas da população e não implica o pagamento de comissões.
Ênfase nas “comissões”, dirão alguns. Não importa: o Estado português quer controlar tudo, mas não controla as suas próprias contas.

Deveria ter ficado quieto. Leis assim minam a credibilidade da política económica e a atratividade de Portugal como destino de investimento.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.