A inesgotável fábrica de fantasias

Como o desfecho da bolha imobiliária nos ensinou no passado, os conceitos básicos de economia nunca mudam realmente. São as pessoas que fabricam estas fantasias.

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Por 23 de Novembro de 2016

.: Desta vez não é diferente
.: À porta fechada
.: Pontos nos “is”
.: Nos mercados
.: O minuto de Portugal

00:09 - Desta vez não é diferente

De vez em quando, os economistas convencem este mundo e outro que a economia mudou radicalmente…

No calor das circunstâncias, os investidores empurram os preços dos ativos para novos máximos.

Os banqueiros centrais, os políticos e os investidores envolvidos em todas as bolhas financeiras estão, a determinada altura, totalmente convencidos de que, em termos de conjuntura económica, o planeta entrou num novo “paradigma”…

Como o desfecho da bolha imobiliária nos ensinou no passado, os conceitos básicos de economia nunca mudam realmente.

São as pessoas que fabricam estas fantasias.

01:22 - À porta fechada

Existe um adágio popular no mercado que, apesar de à porta fechada ser motivo de chacota, os analistas não se cansam de reverberar.

Falo do famigerado “this time is different” (agora é diferente).

Este processo demora algum tempo… Mas gradualmente, os grandesplayers da economia começam a desenvolver uma confiança à prova de bala na eficiência dos mercados e na saúde da economia.

Esse otimismo infundado esteve presente em todas as grandes crises.

Primeiro, na Grande Depressão.

Depois reapareceu na década de 1980, na crise da dívida dos países emergentes.

Mais tarde, na década de 1990, com o colapso asiático.

E na mãe-de-todas as crises financeiras em 2008-2009…

As condições diferiam, mas a mesma mentalidade – uma mistura perigosa de arrogância, euforia e amnésia – levou a cada um desses colapsos!

02:07 - Pontos nos “is”

Estes colapsos são diferentes, mas compartilham algumas premissas comuns:

i) O fluxo de capital gigantesco – o dedo dos bancos centrais aparece em todas as crises. O excesso de liquidez é a semente de todas as bolhas.

ii) Uma onda de inovação financeira que reforça o argumento de mudança – na última crise foram as hipotecas. Desta vez, em meio à maior experiência em política monetária da história, o que não escassa é “inovação financeira”.

iii) Um boom imobiliário – ainda há bem pouco tempo o UBS identificou cinco capitais mundiais onde os preços dos imóveis tinham subido mais de 20% no último ano.

Efetivamente parece que o mundo reúne todos os ingredientes de uma bolha. Mas deixa-me adivinhar: desta vez é diferente, certo?

03:09 - Nos mercados

Enquanto eu me torno mais pessimista, o mercado fica mais otimista.

Numa natureza de contrabalanço.

O mercado antecipa menos risco. E eu prevejo exatamente o contrário. Sou cético por natureza.

Quando os condutores estão tão confiantes que encetam numa condução perigosa (sem cinto e com as luzes desligadas) é precisamente quando os acidentes acontecem.

Mas é nestes momentos que a velocidade é maior…

Como tal, os três principais índices de ações de Wall Street terminaram a sessão de ontem em máximos pelo segundo dia consecutivo.

Apesar dos ganhos moderados, o Dow fechou acima da marca de 19.000 pontos e o S&P500 terminou o dia a norte de 2.200 pela primeira vez na história. O Nasdaq e small-cap Russell 2000 (RUT) também atingiram níveis recordes. Siga!

Na Europa, as Bolsas continuam a beneficiar do sentimento positivo e o principal índice pan-europeu Stoxx 600 (STOXX) ascendeu ao nível mais alto das últimas semanas.

04:01 - O minuto de Portugal

Como já vem sendo habitual, deixo este último minuto para Portugal. E para não variar, o tema é a célebre dívida.

São duas notícias. Uma positiva. Outra nem tanto.

Começo com a boa. O executivo decidiu avançar com pagamento de 2 mil milhões de euros ao FMI, uma medida que permitirá uma poupança entre 40 a 80 milhões de euros em juros anualmente. O plano inicial era de 6 mil milhões.

A menos boa: Portugal fará nova emissão de dívida a 5 anos e deverá pagar uma taxa de juro média entre os 2,1% e os 2,2% — no leilão anterior pagou um juro de 1,87%.

À medida que os juros no mercado secundário aumentam (onde investidores vendem entre si), as novas emissões ficarão mais caras.

Assim, este mercado serve de proxy para o juro a ser pago em futuras colocações de dívida.

Apertem os cintos.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.