Invasão Chinesa a Portugal

Olhando para trás, Paulo Futre não estava assim tão errado quando previu que viriam charters de chineses todas as semanas. Como outros grandes génios, estaria demasiado à frente da curva…

Maior Menor
Por 3 de Agosto de 2016

.: Pouco agito
.: Praça alfacinha
.: Boost de moral
.: É para rir...
.: “Vai Vir” Charters

00:10 - Pouco agito

Dia de pouco movimento nos mercados, como um pequeno bálsamo de férias. As atenções do dia (para quem ainda não ativou o auto-reply do office) estão voltadas para os resultados trimestrais das empresas.

A earning season (leia-se, época de resultados) não tem sido especialmente má, mas permaneço desconfiado com as recentes subidas.

É um facto que um grande número de empresas superou as estimativas dos analistas, mas se olhar para os números, a maioria não está realmente a crescer as vendas ou os lucros.

01:22 - Praça alfacinha

Em Lisboa, a situação é muito semelhante ao resto da Europa. O PSI-20, o principal índice nacional, mantém-se inalterado esta manhã.

Apenas os juros da dívida pública portuguesa registam algum alívio esta quarta-feira, acompanhando a tendência que se estende à generalidade dos países do Euro.

A “yield” associada às obrigações a dez anos desce 2pb para 2,927%, enquanto em Espanha, no mesmo prazo, os juros sobem 3pb para 1,079%.

Reparou? Também achei que não lhe escapava…

Pagamos praticamente mais 2 p.p. que um país que não tem governo há vários meses.

Caso para dizer que: mudar por mudar, mais vale não fazer nada.

02:05 - Boost de moral

A ajudar ao sentimento positivo no mercado de dívida está a perspetiva de nova flexibilização das regras do programa de compras do Banco Central Europeu.

Atualmente, a entidade liderada por Mario Draghi está limitada a fazer compras de acordo com a chave-capital de cada Estado-membro. Se os rumores forem verdade, estará em cima da mesa abolir essa regra.

Isso beneficiaria em grande medida as “yields” dos países do sul da Europa (Portugal, especialmente), que são os mais endividados.

Nesta fase, o BCE vê-se obrigado a diminuir o ritmo de compras para não ultrapassar os limites autoimpostos. De facto, de acordo com a Bloomberg, o BCE reduziu o ritmo de compra de dívida de países como a Itália, Portugal e Espanha, em julho.
No total, a compra de dívida pública, no âmbito do programa de compra de ativos de países do Euro, diminuiu em 3,3%, quando comparado com o mês anterior e a compra da dívida portuguesa totalizou apenas 958 milhões de euros, sendo o valor mais baixo de sempre.

Se tirarem o colete de forças ao Super Mario, as yields periféricas are going down!

03:19 - É para rir...

Nesta fase, a relação entre os fundamentais do país e a taxa de juro está completamente deturpada, mas podem ficar ainda mais mirabolantes. Acompanharemos ao longo do M5M…

No panorama político, a silly season começou oficialmente:

Depois da febre das reversões, agora chegou o frenesim legislativo. Isto é, medidas à esquerda e à direita. Todos os dias a gerigonça desperta com uma ideia “desenvolvimentista”.

Desta vez, os critérios de avaliação dos imóveis vão mudar para passar a incluir a exposição solar e a vista no cálculo do valor fiscal. Sim, ouviu bem… Se tem uma janela virada para o rio e quer poupar uns cobres, talvez seja melhor mandar fechá-la.

Mas não fica por aqui… de acordo com os jornais matutinos, os proprietários de imóveis com vários apartamentos destinados a arrendamento temporário deverão passar a ser obrigados a disponibilizar, complementarmente, “alojamento em arrendamento de longa duração na mesma área urbana e em proporção a definir”.

Com efeito, trata-se de impor uma quota: a partir de um determinado número de imóveis, uma proporção terá de ser disponibilizada aos habitantes locais.

Mesmo que, no caso de Lisboa, 90% dos proprietários tenha apenas um a três imóveis nos AirBnbs da vida – aliás, 70% são pequenos investidores com apenas um imóvel nestas condições.

Além de nova intromissão (negativa) num mercado que está a dinamizar a economia portuguesa, o seu impacto também será residual. Ou seja, é diarreia legislativa que serve apenas para fazer manchetes e não ajuda minimamente as pessoas ou a economia.

04:02 - “Vai Vir” Charters

Num excelente artigo do Jornal de Negócios, faz-se menção a um fenómeno que está a mudar a estrutura acionista das empresas cotadas…

Olhando para trás, Paulo Futre não estava assim tão errado quando previu que viriam charters de chineses todas as semanas. Como outros grandes génios, estaria demasiado à frente da curva…

As privatizações no sector da energia, em 2012, trouxeram os chineses para um lugar de destaque na bolsa nacional.

De um peso quase insignificante no final de 2011, os chineses passaram a deter quase 6% da capitalização do PSI-20.

Agora, a concretizar-se o investimento da Fosun no BCP, os chineses passariam a ser os principais investidores estrangeiros na bolsa portuguesa e esta percentagem poderia aumentar para 6,25% ou mesmo 6,5% (se o investimento chegar aos 30% no maior banco privado nacional).

É mais um sinal que os grupos económicos portugueses simplesmente não têm dinheiro para investir nas empresas portuguesas. E como eu sou daqueles que acha que os euros não têm nacionalidade, haja quem queira investir em Portugal!

Alguns patrióticos devem estar a contorcer-se na cadeira, mas sem dinheiro não há palhaços…

A minha única ressalva vai para a influência política que estes grupos económicos tendem a exercer para se beneficiar e matar a livre concorrência. Por isso, devemos estar vigilantes.

Já sabemos que os nossos representantes gostam de tirar partido da zona cinzenta que são as relações entre o interesse privado e público.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.