A mãe de todas as bolhas

Diante deste cenário, ou a economia cresce e os resultados acompanham-na, ou, sem crescimento, vamos continuar a assistir à engorda dos múltiplos. Até ao dia em que matam o peru.

Maior Menor
Por 28 de Fevereiro de 2017

.: Máximos atrás de máximos
.: Tremendous hope
.: Demasiado quente
.: Participando na festa, mas já a beber algo
.: Passatempo nacional

00:10 - Máximos atrás de máximos

Já dissemos aqui repetidas vezes que os índices norte-americanos estão em máximos de todos os tempos.

Para ter uma ideia, o S&P500 subiu 10% desde as eleições de novembro.

E o Dow Jones alcança novos máximos há 12 sessões consecutivas.

maximos-atras-de-maximos

É uma série de vitórias que não se via no mercado americano há pelo menos 30 anos.

Os investidores estão todos inflamados com a perspetiva de mais estímulos (desta vez, fiscais) prometidos pela nova administração. E já estão a refletir no preço de todos esses triunfos.

O problema é que vai chegar uma altura em que a bazófia do presidente não vai ser suficiente para alimentar a bolsa. Nesse momento, terá de chegar-se à frente e fazer realmente alguma coisa.

Hoje é o dia em que vamos começar a perceber se Trump tem algum truque na manga ou, se pelo contrário, são tudo balelas…

01:09 - Tremendous hope

Esta terça-feira, o presidente dos EUA vai dirigir-se às duas casas do Congresso para delinear a sua agenda económica.

De acordo com o veiculado, em cima da mesa estará um programa de redução de impostos, desregulação de setores e um plano massivo de infraestruturas.

Sou completamente a favor das duas primeiras.

Totalmente contra a terceira. Sabemos perfeitamente quem é que ganha quando se constroem autoestradas para lado nenhum…

Além disso, ainda ontem soubemos que o presidente pretende aumentar o orçamento do Pentágono em quase 10% ($54 biliões). Os atuais $600 biliões anuais não parecem suficientes…

Cotação da Raytheon nos últimos 5 anos – Fonte: Bloomberg

tremendous-hope

A maior produtora de mísseis guiados do mundo agradece.

Curioso como também se deu muito bem sob o reinado do “prémio Nobel da Paz”.

not-bad-tremendous

Desculpe este detour na conversa…

Neste momento estamos todos à espera do que vai acontecer. Será que Donald vai conseguir entregar?

02:04 - Demasiado quente

Eu acho que não. Ou se calhar desejo que não – já não sei ao certo. Posso estar a sofrer de dissonância cognitiva.

Faz-me (bastante) confusão que os índices estejam tão sobrevalorizados relativamente aos fundamentais.

demasiado-quente

O indicador CAPE Shiller coloca o S&P500 no mesmo nível que a Black Tuesday, o prenúncio da grande depressão dos anos 30…

Para falar a verdade até compreendo: depois de triliões injetados na economia pelos bancos centrais ao redor do mundo, a bolha poderá continuar a encher, a encher, a encher… convenhamos, o custo de oportunidade é bastante baixo.

Ou seja, está bastante caro para padrões históricos, mas barato se comparado ao panorama de juros excecionalmente baixos.

Então o que poderá acontecer?

Por um lado, as margens de lucro já estão nos máximos históricos (despesa financeira na mínima e buybacks em all-time highs). Por outro, a proporção de lucros sobre o PIB também está em níveis recorde.

Portanto, diante deste cenário, ou a economia cresce e os resultados acompanham-na, ou, sem crescimento, vamos continuar a assistir à engorda dos múltiplos.

Até ao dia em que matam o peru.

03:15 - Participando na festa, mas já a beber algo

Nesse advento, o melhor que o investidor pode fazer é comprar seguros.

Não deve torcer pelo final da festa. O melhor mesmo é gozar a sua bebedeira, mas com a aplicação da Uber. Se acabar de repente, não vai querer voltar para casa com um copo a mais e enfiar-se contra uma árvore.

Para isso, deve reservar uma pequena parte do seu dinheiro para seguros contra a catástrofe. Isto se quiser participar na festa.

O ativo anticrises faz parte do relatório que disponibilizamos no Carta Empiricus.

Para investidores mais sofisticados, também indicamos compra de puts fora do dinheiro como forma de proteção.

 

04:22 - Passatempo nacional

E por falar em resguardo contra uma crise…

Mesmo diante de um ligeiro alívio das taxas de juro a 10 anos – agora nos 3,8% –, que refletem a esperança na flexibilização das regras do QE europeu…

Em Portugal, simplesmente, deixou de falar-se de política. E fala-se antes de “casos”: CGD e offshores. O novo passatempo nacional.

No que realmente interessa, está tudo igual: dívida nos 130% do PIB com crescimento anémico e setor financeiro em frangalhos.

Novamente, a banca portuguesa continua vulnerável a um choque externo/interno – existem bastantes possibilidades de isso acontecer.

Nesse sentido, fizemos um belo acervo dos melhores e piores bancos em Portugal que disponibilizamos aos assinantes da série Carta Empiricus.

Onde, inclusive, revelo o único banco onde eu guardo as minhas poupanças.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.