A mãe de todas as bolhas
Diante deste cenário, ou a economia cresce e os resultados acompanham-na, ou, sem crescimento, vamos continuar a assistir à engorda dos múltiplos. Até ao dia em que matam o peru.
.: Máximos atrás de máximos
.: Tremendous hope
.: Demasiado quente
.: Participando na festa, mas já a beber algo
.: Passatempo nacional
00:10 - Máximos atrás de máximos
Já dissemos aqui repetidas vezes que os índices norte-americanos estão em máximos de todos os tempos.
Para ter uma ideia, o S&P500 subiu 10% desde as eleições de novembro.
E o Dow Jones alcança novos máximos há 12 sessões consecutivas.

É uma série de vitórias que não se via no mercado americano há pelo menos 30 anos.
Os investidores estão todos inflamados com a perspetiva de mais estímulos (desta vez, fiscais) prometidos pela nova administração. E já estão a refletir no preço de todos esses triunfos.
O problema é que vai chegar uma altura em que a bazófia do presidente não vai ser suficiente para alimentar a bolsa. Nesse momento, terá de chegar-se à frente e fazer realmente alguma coisa.
Hoje é o dia em que vamos começar a perceber se Trump tem algum truque na manga ou, se pelo contrário, são tudo balelas…
01:09 - Tremendous hope
Esta terça-feira, o presidente dos EUA vai dirigir-se às duas casas do Congresso para delinear a sua agenda económica.
De acordo com o veiculado, em cima da mesa estará um programa de redução de impostos, desregulação de setores e um plano massivo de infraestruturas.
Sou completamente a favor das duas primeiras.
Totalmente contra a terceira. Sabemos perfeitamente quem é que ganha quando se constroem autoestradas para lado nenhum…
Além disso, ainda ontem soubemos que o presidente pretende aumentar o orçamento do Pentágono em quase 10% ($54 biliões). Os atuais $600 biliões anuais não parecem suficientes…
Cotação da Raytheon nos últimos 5 anos – Fonte: Bloomberg

A maior produtora de mísseis guiados do mundo agradece.
Curioso como também se deu muito bem sob o reinado do “prémio Nobel da Paz”.

Desculpe este detour na conversa…
Neste momento estamos todos à espera do que vai acontecer. Será que Donald vai conseguir entregar?
02:04 - Demasiado quente
Eu acho que não. Ou se calhar desejo que não – já não sei ao certo. Posso estar a sofrer de dissonância cognitiva.
Faz-me (bastante) confusão que os índices estejam tão sobrevalorizados relativamente aos fundamentais.

O indicador CAPE Shiller coloca o S&P500 no mesmo nível que a Black Tuesday, o prenúncio da grande depressão dos anos 30…
Para falar a verdade até compreendo: depois de triliões injetados na economia pelos bancos centrais ao redor do mundo, a bolha poderá continuar a encher, a encher, a encher… convenhamos, o custo de oportunidade é bastante baixo.
Ou seja, está bastante caro para padrões históricos, mas barato se comparado ao panorama de juros excecionalmente baixos.
Então o que poderá acontecer?
Por um lado, as margens de lucro já estão nos máximos históricos (despesa financeira na mínima e buybacks em all-time highs). Por outro, a proporção de lucros sobre o PIB também está em níveis recorde.
Portanto, diante deste cenário, ou a economia cresce e os resultados acompanham-na, ou, sem crescimento, vamos continuar a assistir à engorda dos múltiplos.
Até ao dia em que matam o peru.
03:15 - Participando na festa, mas já a beber algo
Nesse advento, o melhor que o investidor pode fazer é comprar seguros.
Não deve torcer pelo final da festa. O melhor mesmo é gozar a sua bebedeira, mas com a aplicação da Uber. Se acabar de repente, não vai querer voltar para casa com um copo a mais e enfiar-se contra uma árvore.
Para isso, deve reservar uma pequena parte do seu dinheiro para seguros contra a catástrofe. Isto se quiser participar na festa.
O ativo anticrises faz parte do relatório que disponibilizamos no Carta Empiricus.
Para investidores mais sofisticados, também indicamos compra de puts fora do dinheiro como forma de proteção.
04:22 - Passatempo nacional
E por falar em resguardo contra uma crise…
Mesmo diante de um ligeiro alívio das taxas de juro a 10 anos – agora nos 3,8% –, que refletem a esperança na flexibilização das regras do QE europeu…
Em Portugal, simplesmente, deixou de falar-se de política. E fala-se antes de “casos”: CGD e offshores. O novo passatempo nacional.
No que realmente interessa, está tudo igual: dívida nos 130% do PIB com crescimento anémico e setor financeiro em frangalhos.
Novamente, a banca portuguesa continua vulnerável a um choque externo/interno – existem bastantes possibilidades de isso acontecer.
Nesse sentido, fizemos um belo acervo dos melhores e piores bancos em Portugal que disponibilizamos aos assinantes da série Carta Empiricus.
Onde, inclusive, revelo o único banco onde eu guardo as minhas poupanças.
Pedro Gonçalves, Editor-chefe
Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.
Ler todos os artigos