Mercados fechados

Europa e Japão começaram por imitar o modelo norte-americano. Entretanto, foram mais longe e implementaram taxas negativas para incentivar os bancos a emprestar dinheiro. Tornando oneroso o dinheiro que fica parqueado no banco central.

Maior Menor
Por 28 de Março de 2016

.: Boxing day
.: Deixa ir quem nunca fez nada para ficar
.: Teoria da incerteza
.: Efeito duplo
.: Biggest Fear

00:09 - Boxing day

Páscoa acabou, mas os mercados continuam fechados.É uma boa altura para falar de política monetária… (ok, tem razão, nunca é)… mas prometo que não vou complicar.

Veja bem, um dos responsáveis do Banco Central Europeu defendeu que para a economia europeia recuperar não basta baixar as taxas de juro.

A evidência é muito clara.

O Fed baixou as taxas para perto de zero no rescaldo da crise financeira de 2008.

Oito anos volvidos e as interest rates ainda estão no mesmo sítio (0,5%).

A economia cresceu e ainda cresce, mas o impacto da abundância de liquidez é discutível na melhor das hipóteses.

01:12 - Deixa ir quem nunca fez nada para ficar

Europa e Japão começaram por imitar o modelo norte-americano.

Entretanto, foram mais longe e implementaram taxas negativas para incentivar os bancos a emprestar dinheiro.

Tornando oneroso o dinheiro que fica parqueado no banco central.

Claro que o tiro saiu pela culatra.

Com os juros nas obrigações de curto e longo prazo a cair, isto resultou numa minicrise do sistema financeira, com os bancos a sofrer com margens apertadas e lucros encolhidos.

As instituições de crédito procuram alternativas de investimento fora da zona Euro e o crescimento quase que não chega a 1%.

Para ganhar tão pouco, eles não arriscam…

02:05 - Teoria da incerteza

Em termos teóricos, percebe-se porque é que o Quantitative Easing já fez o que tinha a fazer…

A medida não-convencional em que os bancos centrais compram montantes industriais de obrigações de longo prazo e que faz com que as obrigações de 10, 20 anos…

Paguem pouco mais que os títulos equivalentes a 1, 2 anos…

Não devia ser assim, certo?

Quanto mais tempo tenho um ativo, maior é a minha incerteza, logo quero receber mais por isso.

A premissa é fácil: se eu não sei o que vai acontecer amanhã, quanto mais daqui a 20 anos…

03:12 - Efeito duplo

O QE teve dois efeitos:

– yields baixas no mercado dívida obrigou os investidores a desviar o dinheiro para o mercado de ações. Nota 20 neste objetivo.

Abaixo, pode confirmar isto facilmente, compare o valor do balanço do Fed (montante de obrigações em carteira) e a evolução do índice de ações americano.

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– o segundo efeito é nocivo e atinge sobretudo o setor financeiro.

Ao manipular as taxas de juro de longo-prazo, os bancos centrais criam condições favoráveis para os consumidores.

Para os bancos? Not so much…

Os bancos pedem emprestado no curto-prazo e emprestam no longo (a sua hipoteca a 30 anos) e lucram a diferença…

Ora se a diferença é cada vez menor… imagine o que isso faz aos lucros dos bancos.

04:10 - Biggest Fear

Pintei-lhe um cenário dantesco…

Porque é que lhe falo sobre isso?

Eu tenho medo que outra crise inesperada aconteça e os bancos centrais não vão ter margem para agir…

É por isso que todos os mais cautelosos (eu incluído) gostariam de ver o Fed a subir as taxas…

Mais que não seja, para poder baixá-las se houver outra hecatombe.

Uma espécie de abono de família.

Assim parece que o Banco Central só tem o Éderzito para lançar na partida se o resultado não estiver favorável…

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Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.