Meu mercado louco

O mercado é esquizofrénico, costumamos dizer. Parece que o lado mais racional o leva a ser mais ponderado, a fazer as contas, porém o lado emocional quer ser surpreendido.

Maior Menor
Por 5 de Dezembro de 2016

.: Neuroléptico
.: Vamos aos factos
.: Por resolver
.: Por partes
.: Espelho meu

00:10 - Neuroléptico

O mercado é esquizofrénico, costumamos dizer.

Por um lado, está constantemente à procura de anomalias nas avaliações, numa busca incessante por ativos abaixo do justo valor…

Mas depois tem comportamentos surpreendentes, porque mostra disponibilidade para comprar independentemente do risco.

Parece que o lado mais racional o leva a ser mais ponderado, a fazer as contas, porém o lado emocional quer ser surpreendido.

Hoje, em jeito de testemunho, as bolsas foram da depressão à euforia em menos de 60 minutos.

Alguém se esqueceu de tomar os antipsicóticos…

01:22 - Vamos aos factos

Em Itália, Renzi levou um redondo NÃO no referendo sobre a reforma constitucional europeia e demitiu-se.

Ok. Não foi propriamente uma novidade. Pelo menos em estatística. Em face do desacerto das últimas pesquisas, alguém ainda poderia desconfiar das mesmas.

Desta feita, porém, as sondagens estavam corretas: os italianos estão fartos da intromissão da Europa na política doméstica.

Então e agora?

Se não bastassem os notáveis desequilíbrios nas contas públicas, a demissão do primeiro-ministro italiano coloca um ponto de interrogação na resolução do sistema bancário transalpino: com créditos em risco superiores a 350 mil milhões de euros.

Os partidos da oposição, o Movimento Cinco Estrelas de Grillo, a Liga do Norte de Calvini e o Forza Italia de Berlusconi, querem eleições antecipadas o mais rápido possível…

Além da óbvia machadada na frágil estabilidade do setor financeiro, o resultado da votação confirma a ascensão do sentimento anti-euro.

02:33 - Por resolver

Assim, aguarde por noites complicadas nos próximos meses, especialmente em França e nos Países Baixos, onde os eleitores terão a palavra de ordem…

Como corolário de uma ampliação do nível de incerteza, a primeira reação do mercado foi espontânea: vende primeiro, pensa depois.

As ações europeias principiaram o dia no vermelho, com o euro a tombar para mínimos do ano e juros das obrigações dos países periféricos em alta.

Claro… Portugal também (juros das OT a 10 anos bateram nos 3,8%).

Contudo, ainda não tinha escrito o título deste M5M e o mercado já tinha recuperado das perdas iniciais e o principal índice bolsista europeu (STOXX600) subia mais de 1%…

Hum… estranho?

03:09 - Por partes

Por um lado, cresce a perceção de que caminhamos para um mundo de maior indefinição – nos EUA, porque ninguém sabe ao certo o que significam as Trumponomics; na Europa, porque o sentimento anti-euro está em expansão.

Por outro, os índices acionistas seguem com fortes valorizações.

Pois bem, ofereço-lhe duas leituras:

Primeiro, a nega italiana já estava refletida no preço.

Segundo, a combinação deste resultado com a reunião de Mario Draghi no dia 8 de dezembro augura mais um pacote de estímulos (veja-se a reação da moeda única).

E nós sabemos como o mercado adora uma boa dose de liquidez.

04:01 - Espelho meu

Dias como este servem como lembrete da importância de se ter convicções ao invés de se deixar levar pelas notícias do dia.

Apresentei duas leituras. O mercado é o reflexo de milhões.

Eu acredito sinceramente que a matemática acaba por ter sempre razão, no entanto, no curto prazo os movimentos tendem para a aleatoriedade.

É improvável que a ascensão do populismo seja favorável à economia. Contudo, agora o mercado prefere ignorar esse facto.

Já estava no preço, dirão alguns. Sim, mas como é que a confirmação de um mau cenário passa a ser uma boa notícia?

Pois bem, os preços são uma função de uma batelada de interpretações. É impossível prever com qual das variáveis “o Sr. Mercado” vai debruçar-se no dia.

Conselho: foque-se na Big Picture. No curto prazo é um casino.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.