Música experimental

Vamos ver quão coordenadas estão as vozes acerca de subir taxas. Melhor, só se os chefes regionais decidissem alinhar tocar para o mesmo lado: em certos momentos, essa desordem parece jazz experimental.

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Por 29 de Setembro de 2016

.: Cartel de Riade
.: Porque eu tenho as finanças esfarrapadas
.: Muito petróleo
.: O dia das energéticas
.: Podcast

00:11 - Cartel de Riade

Nunca investi em commodities e nunca considerei em investir. Acreditem: apesar de trabalhar nos mercados, tenho uma grande aversão ao risco.

Ainda mais, quando a decisão da Arábia Saudita – de cortar surpreendentemente a produção de barris de petróleo – fez o preço dos futuros do ouro negro saltar 6% num piscar de olhos.

O que me levou a pensar: quem é que aposta num instrumento que depende, quase exclusivamente, da vontade de um cartel liderado por ditadores?

Certamente, quem está na reunião com eles.

Para os restantes mortais, assemelha-se a um casino.

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Gráfico do último mês dos futuros do petróleo – Bloomberg

01:33 - Porque eu tenho as finanças esfarrapadas

Demorou apenas seis meses para o novo ministro do petróleo saudita, Khalid Al-Falih, terminar a estratégia que durava há dois anos de “produz-o-máximo-que-puderes”.

A decisão na reunião desta semana da OPEP de cortar a produção acontece em virtude das finanças esfarrapadas da Arábia Saudita.

O Reino tem o maior défice orçamental das 20 maiores economias do mundo (-13,5% do PIB).

Já queimou mais de US$ 150 biliões de reservas, os empreiteiros do governo estão há largos meses sem receber e esta semana o rei anunciou cortes salariais para os funcionários públicos.

A vida não está fácil por aqueles lados… se não vai lá pelo volume, tem de ir pela margem (leia-se, o preço).

02:12 - Muito petróleo

A Goldman Sachs disse que o pacto para reduzir a produção pode aumentar em 10 dólares o preço do barril (atualmente nos $47), embora permaneça cética sobre a forma como o acordo será implementado.

Continuo com muitas dúvidas que os outros produtores também afrouxem na produção. Veja bem:

Este acordo acontece quando o campo petrolífero mais caro de sempre acaba de entrar em funcionamento (custou $50 biliões em Kashagan, no Cazaquistão).

A Rússia bateu o recorde histórico de produção no mês passado.

O México e a Noruega não fazem tenções de abrandar. E os americanos só estão à espera de um aumento do preço para voltar às perfuradoras.

Conclusão: ainda existe muito petróleo por aí. Será mesmo um game changer?

03:04 - O dia das energéticas

Na Europa, bolsas disparam, incentivadas por apostas redobradas (re-re-redobradas?) de que a subida do preço do petróleo irá suportar a atividade do setor energético.

A Galp, por exemplo, já esteve a subir 4%. E o setor como um todo leva 2%…

O resto do mercado vai por arrasto. Prefere ignorar os problemas estruturais e arremete para cima. Até quando?

Entretanto nos EUA, os futuros dão sinais de fraqueza à medida que as dúvidas em relação à sustentabilidade do acordo começam a aflorar. Hum…

04:09 - Podcast

Nos EUA, ainda repercutem os comentários da presidente do Fed, que veio dizer que se o ritmo de criação de emprego se mantiver, a elevação de juros deve ser feita antes do esperado.

Em busca de maiores certezas, agentes económicos aguardam, com alguma expetativa, os dados económicos que vão ser hoje divulgados.

Nomeadamente, os pedidos de subsídios de desemprego (um proxy para o mercado de trabalho) e o PIB norte-americano do segundo trimestre.

Além disso, uma mão cheia de oficiais do Fed também vai estar perto de um microfone esta quinta-feira. Portanto, está na hora do The Voice.

Vamos ver quão coordenadas estão as vozes acerca de subir taxas.

Melhor, só se os chefes regionais decidissem alinhar tocar para o mesmo lado: em certos momentos, essa desordem parece jazz experimental.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.