Na hora de tomar decisões

Iria o estado aproveitar a folga da economia para antecipar a consolidação das contas públicas ou iria optar pelo caminho mais fácil de distribuição de benesses?

Maior Menor
Por 16 de Outubro de 2017

.: É tempo de festa
.: O dilema da geringonça
.: Saldo estrutural
.: Fique atento
.: Novela espanhola

00:12 - É tempo de festa

Já passava da meia-noite da passada sexta-feira quando Mário Centeno deu início à apresentação da proposta de Orçamento do Estado para 2018.

As duas horas de atraso em relação à hora marcada não colocaram em causa o bom humor reinante na sala.

timing também não podia ser melhor…

A economia cresce ao ritmo mais elevado desde o ano 2000 e chegam elogios de todos os quadrantes – inclusive das agências de rating e do FMI.

E não é para menos: a meta de 1% de défice assumida para o próximo ano previa um crescimento bastante mais baixo… com este fulgor, o Estado permite-se a certas veleidades.

01:22 - O dilema da geringonça

No meio deste quadro pitoresco, restava perceber uma coisa:

Iria o estado aproveitar a folga da economia para antecipar a consolidação das contas públicas ou iria optar pelo caminho mais fácil de distribuição de benesses?

Este executivo, como tem sido apanágio, escolheu a segunda.

Aproveita uma coleta recorde de impostos para, tendo em conta o passado, satisfazer objetivos de uma essência eleitoralista.

É o já habitual “tira-se um pouco daqui e dá-se um pouco acolá”.

No substrato fica tudo exatamente na mesma, com a agravante que se perde uma excelente ocasião para corrigir alguns dos crónicos desequilíbrios da economia nacional.

02:05 - Saldo estrutural

A questão mais importante é, efetivamente, o saldo estrutural.

É esta a métrica que nos dá a verdadeira dimensão do ajustamento das contas públicas, uma vez que desconta o efeito do ciclo económico.

Como o défice estrutural vai ficar estabilizado nos 2%, conseguimos facilmente chegar à conclusão de que toda a consolidação provém do aumento da receita.

E que o executivo opta novamente por não utilizar o bom momento económico para preparar Portugal melhor para quando o ciclo económico inverter…

Em suma: neste Orçamento perde-se uma boa oportunidade para apetrechar o país da capacidade para lidar com uma próxima crise.

03:02 - Fique atento

Na bolsa, o tema é praticamente irrelevante com grande parte das cotadas no zero a zero.

O destaque pela negativa vai para a EDP, que já esteve a cair 5%, e no rescaldo da proposta da ERSE prevê uma descida de 0,2% nas tarifas da eletricidade no mercado regulado para 2018.

Em resposta, vários bancos cortaram o preço-alvo da elétrica, o que naturalmente agudiza o sentimento negativo.

No curto prazo, pode provocar uma reação muito negativa, mas vejo uma reação exagerada como um bom momento de entrada… fique atento.

04:20 - Novela espanhola

Lá fora, o euro está em queda pela terceira sessão consecutiva uma vez que o líder catalão, Carles Puigdemont, continua o seu braço de ferro com Madrid.

Continuamos sem saber se a região declarou oficialmente a independência ou não.

O prazo para clarificar a situação expirava hoje, mas, entretanto, o governo espanhol estendeu o deadline até quinta-feira…

Parece que a novela é para continuar e cheira-me que não vai dar em nada.

Veremos.

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.