Nem tudo é o que parece

Como já desconfiávamos, e com o triunfo da economia comportamental, compreendemos agora que esse indivíduo racional divergia da realidade…

Maior Menor
Por 31 de Outubro de 2017

.: Vida difícil
.: Folha de Excel
.: Homo economicus
.: Nem por isso
.: O dia depois de amanhã

00:12 - Vida difícil

A vida de financista é ingrata.

Todos os dias a martelar o Excel: uma décima para cima, uma décima para baixo…

A sociedade exige um número exato.

Mas o João sabe que as variáveis são infinitas e que todas elas têm impacto à sua maneira na economia.

A confiança do consumidor chinês, o poder de compra do consumidor português, o índice de confiança do empresário espanhol, o preço do petróleo, o mercado de trabalho nos EUA, os sonhos de Mario Draghi… enfim…

Na faculdade nunca pensou que lhe pediriam para ser adivinho.

 

01:22 - Folha de Excel

Com efeito, reduzir o mundo em que vivemos a variáveis quantificáveis e depois trabalhar esses dados num modelo matemático, para, no final, produzir um número que, na maioria dos casos, acaba por estar longe da realidade é uma tarefa árdua e pouco reconhecida pela sociedade em geral…

Fazemos engenharia invertida, goal seek para provar com os números – coitados dos números! – aquilo que mais desejamos.

Ou seja, primeiro dizemos a nós mesmo o que achamos de um determinado investimento e depois procuramos através de folhas de Excel sofisticadas corroborar o nosso palpite.

A razão é simples: o desejo de controlo.

02:12 - Homo economicus

Repare que existe uma forma de a matemática realmente caber nos modelos económicos, sem que as exceções destruam todo o arcaboiço técnico.

Os economistas concordaram (quase) por unanimidade que qualquer indivíduo – enquanto agente económico – age em plena conformidade com preceitos racionais.

A este pedaço de ser humano chamou-se de homo economicus.

 

03:12 - Nem por isso

Como já desconfiávamos, e com o triunfo da economia comportamental, compreendemos agora que esse indivíduo racional divergia da realidade…

Infelizmente, a teoria financeira que orienta as várias práticas de mercado – DCF ou teoria do portfólio – ainda não faz o reconhecimento desta GRANDE nuance.

Sendo assim, os financeiros continuam, erradamente, a frequentar um mundo em que é possível fazer estimativas exatas sobre eventos futuros.

Caímos então na esparrela de que conseguimos prever o destino, de que existem investimentos infalíveis ou taxas de retorno garantidas…

04:12 - O dia depois de amanhã

É exatamente o oposto: ninguém consegue saber o dia de amanhã.

Por essa razão é que é tão importante diversificar a sua carteira.

Diversificar é aquela história de não colocar os ovos todos na mesma cesta.

Dizemos isto porque não temos a pretensão de conhecer probabilidades e todos os cenários possíveis. Assumimos a nossa ignorância e adotamos uma postura mais humilde e acessível.

Deve rechear a sua carteira com ativos de alto potencial, ter grande exposição a ativos seguros e comprar uns seguros contra eventos catastróficos (que por estarem fora do radar são os mais perigosos).

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.