O C3PO é agora o seu gestor

Primeiro, foram os algoritmos. Agora, os gestores estão a lançar um novo tipo de fundo efetivamente administrado por uma multidão de máquinas.

Maior Menor
Por 27 de Outubro de 2016

.: O início da Robótica
.: Em todas as vertentes da vida
.: Vamos com calma
.: Suporte académico
.: Enquanto isso...

00:02 - O início da Robótica

Isaac Asimov, o grão-mestre da ficção científica moderna, é responsável pela criação do termo “robótica” no seu clássico de 1950 “I, Robot” (provavelmente viu a adaptação hollywoodesca protagonizada por Will Smith).

Mais de seis décadas depois, a palavra faz parte do vocabulário corrente…

Um número crescente de empresas está a automatizar software para executar uma miríade de estruturados, tarefas administrativas de rotina que não dependem do julgamento humano.

No entanto, ao invés de robôs brilhantes passeando em torno de edifícios de escritórios, como Asimov conjeturou, a automação de tarefas é possível através de reconfiguração do software existente…

Essas tarefas envolvem grandes quantidades de transferência de dados de várias fontes: como e-mail e folhas de cálculo para grandes armazéns de informação.

o-início-da-robótica

01:22 - Em todas as vertentes da vida

O processo de automatização está presente em praticamente todos os aspetos da vida humana, desde a utilização do nosso smartphone até à forma como o seu café da manhã chega à sua chávena.

De acordo com a Bloomberg, os robôs estão também a tomar conta de Wall Street…

Primeiro, foram os algoritmos. Isto é, a utilização de um software que determina as posições a serem tomadas, o sentido da tendência, o volume a ser negociado e, finalmente, a estratégia a ser adotada.

Agora, os gestores estão a lançar um novo tipo de fundo efetivamente administrado por uma multidão de máquinas.

Após o sucesso dos fundos “beta inteligente” – ETFs híbridos que apimentavam os índices passivos normais com um robô de stock picking…

Agora, nascem os fundos multifatoriais…

A ideia é simples: se o investidor gosta de ações que pagam bons dividendos, vai adorar ainda mais a estratégia se combinada com ações de crescimento, baixa volatilidade e valor…

Por mais confuso que isso possa parecer, o dinheiro está a entrar…

A Morningstar conta 299 ETFs nessa categoria com ativos de US$ 251 biliões, um aumento de 8 por cento desde o início do ano.

02:33 - Vamos com calma

Ou seja, deixa de haver uma estratégia e todas passam a ser possíveis.

Pergunto eu: Não é exatamente isso que um investidor normal já faz para a sua carteira?

Para mim, parece mais um esquema para vender banha da cobra, inventado por Wall Street.

Estratégias altamente complexas que têm poucas hipóteses de ser entendidas por investidores comuns com uma premissa altamente vendável: “uma forma de replicar tudo o que um gestor talentoso oferece, exceto as suas emoções e as suas taxas”.

Mas se fosse assim tão bom, porque é que os grandes bancos estariam a abrir mão dos seus melhores gestores (neste caso, o C3PO e o R2D2)?

vamos-com-calma

03:44 - Suporte académico

Os supercomplexos ETFs multifatoriais e beta inteligentes têm por base uma linhagem académica bem enraizada, em que a hipótese do mercado eficiente tem alguns buracos…

Essa é a premissa de qualquer oportunidade de investimento, diga-se…

Portanto, capturar essas anomalias é uma condição sine qua non para bater o mercado.

É o aspeto inconsciente da escolha de ações que encoraja os defensores dos multifatoriais.

Existe extensa literatura sobre os malefícios das emoções humanas na gestão do dinheiro…

Eles estão convencidos de que, quando um fundo ativo (humano) supera o mercado, não é porque o gerente é um génio, mas porque este teve sorte de construir um portfolio baseado em “temas” que, por acaso, subiram…

Ao tirar o humano da equação, os computadores podem concentrar-se na diversificação, deixando os fatores – que normalmente explicam a maior parte da performance do fundo – fazerem a sua magia.

04:23 - Enquanto isso...

Este seu humilde escriba está a remoer a ideia de ficar sem emprego… substituído por algum algoritmo de texto.

Os mercados europeus seguem numa toada negativa… Alguns digerem resultados ruins. Outros estão na expectativa: esta quinta-feira será o dia mais importante da temporada de resultados, com dezenas de relatórios no pipeline.

Falo de Ford, Twitter, UPS, Dow Chemical, Colgate, Conoco-Phillips, Alphabet, Amazon, Baidu, LinkedIn, etc…

Também a prejudicar o sentimento está o reforço das apostas na elevação das taxas de juro.

O mercado vê 78% de chances de um aumento da taxa na próxima reunião de dezembro da Reserva Federal, segundo o Fed Tax Monitor.

Parece inevitável…

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.