O combate da década

Mudam as personagens e o combate é sempre o mesmo: Baixo crescimento vs. Bancos centrais. Quem irá ganhar?

Maior Menor
Por 5 de Julho de 2016

.: Chef’s table
.: Não bate a bota com a perdigota
.: Thrilla in Manilla
.: Contabilidade criativa
.: Palavra de agradecimento

00:09 - Chef’s table

Existem graves desequilíbrios ao lume no fogão do mercado.

Enquanto os ativos de risco, incluindo ações, subiram após a votação histórica do eleitorado britânico … os ativos sem risco, curiosamente, também dispararam…

Em situações normais, estas duas classes de ativos movimentam-se em sentidos opostos, já que sugerem diferentes perspetivas para o crescimento global.

Com efeito, quando os investidores acreditam na expansão da atividade económica, tendem a aumentar o perfil de risco da sua carteira…

O contrário também é verdade… menor crescimento conduz a uma maior alocação em ativos sem risco…. parece óbvio.

No entanto, o que observámos na semana passada foi o aumento do preço dos títulos da dívida soberana, que afundou as taxas de juro para novos mínimos…

Ao mesmo tempo, a perspetiva de mais estímulos por parte dos bancos centrais acordou os risk takers do mercado acionista.

01:12 - Não bate a bota com a perdigota

Esta mensagem ambígua leva-nos a questionar a durabilidade deste rally em ações…

Veja bem, o S&P5 subiu 3,5% a semana passada e o FTSE100 recuperou as perdas do pós-referendo (em moeda local)…

Praticamente todos os índices europeus recuperaram parte das perdas…

Justamente quando:

– yields da dívida norte-americana de 10 e 30 anos fazem mínimos históricos.

– juros da dívida espanhola caíram para níveis recordes.

– toda a dívida suíça – independentemente da maturidade – negoceia com juros negativos.

02:23 - Thrilla in Manilla

As expetativas de inflação embutidas no preço dos títulos norte-americanos estão a cair precisamente ao mesmo tempo que as ações disparam…

Existe claramente uma desconexão perigosa entre as taxas de juro e as ações.

Neste momento, as bolsas mundiais estão complacentes com o impacto do Brexit na economia global…

Sobretudo porque se abotoam à ideia que os bancos centrais vão injetar doses cavalares de liquidez na economia…

Ou seja, mudam as personagens e o combate é sempre o mesmo:

Baixo crescimento vs. Bancos centrais.

Quem irá ganhar?

M5M0506161

03:04 - Contabilidade criativa

Em Portugal, a novela da execução orçamental assume contornos burlescos:

Em termos de retórica está tutto bene… melhor que o estimado até!

Nas continhas, a realidade já não é assim tão boa.

Muitos não sabem, mas a contabilidade pública é ancorada nos fluxos de caixa, ou seja, só existe uma despesa quando o dinheiro sai. Até lá, ela nunca existiu…

Mesmo que o Estado se tenha comprometido a pagar.

Por isso, é que com artifícios contabilísticos, como atrasar pagamentos (por exemplo, reembolsos do IRS) e postergar investimentos (o Governo pretendia que o investimento crescesse 11,9% este ano, mas ele está a recuar 13,4%)…

Lá se vai conseguindo mascarar a execução orçamental…

04:09 - Palavra de agradecimento

Algumas pressões sobre as contas públicas ainda não aparecem nestes dados…

É o caso da descida do IVA na restauração e a continuação da inversão dos cortes dos funcionários públicos.

Já para não falar na possibilidade do reforço de capital da CGD – que pode chegar a 5 mil milhões!

Que ainda não sabemos se conta para o défice (mas terá de ser pago).

É caso para dizer: Centeno, obrigado, está a correr tudo às mil maravilhas!

Pedro Gonçalves, Editor-chefe

Pedro Gonçalves foi Portfolio Manager no Millennium Investment Banking. É licenciado em Finanças pelo ISCTE – Business School e mestre em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Atualmente, é editor-chefe da Empiricus Portugal.